Internacional

Corte de R$ 800, jato particular e silêncio: o mistério de Flávio em Miami

Senador Flávio Bolsonaro com cabelo recém-cortado em salão de Miami Beach antes de entrevista ao NYT
Flávio Bolsonaro em salão de celebridades em Miami horas antes de negar ajuda logística para sair do Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) gastou cerca de R$ 820 em um salão de celebridades em Miami Beach horas antes de conceder entrevista ao New York Times. O detalhe do visual contrasta com a versão que ele apresentou sobre a própria chegada aos Estados Unidos.

A reportagem, publicada na quinta-feira (5), mostra o político com o cabelo recém-cortado enquanto nega ter recebido ajuda logística de qualquer governo para deixar o Brasil. Mas documentos e reportagens internacionais apontam outro cenário.

A conta do visual na “casa das celebridades”

O atendimento ocorreu no EC Hair Salon, em North Miami Beach, comandado pelo brasileiro Emerson Cristiano. O estabelecimento, fundado em 2015, virou ponto fixo de nomes como Gusttavo Lima, Júlio César, Alexandre Pires, Roberto Justus e as filhas de Gugu Liberato.

O corte custa, em média, US$ 150. Flávio foi atendido na manhã de quarta-feira (4) e posou para fotos com a equipe, publicadas nos stories do salão. A impressão deixada, segundo frequentadores, é a de quem pretende fixar residência na Flórida.

O voo que ninguém explica

Na conversa com a jornalista Ana Ionova, o senador foi taxativo: “Fui eu quem fez tudo. Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo”. Questionado sobre a rota de fuga, disse que levará o segredo “para o túmulo”.

Essa versão colide com apurações do próprio New York Times e do Wall Street Journal. Ambos noticiaram que o deslocamento ocorreu em um jato particular providenciado por Jason Miller, ex-assessor de comunicação da Casa Branca na gestão Trump.

  • Data da chegada aos EUA: 28 de outubro de 2022.
  • Contexto: Derrota no segundo turno e ordem de entrega de passaportes no Brasil.
  • Investigação em curso: Suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz.

Da “carta golpista” à entrevista de costume

Logo após pousar em solo americano, Flávio divulgou carta na qual se autointitulava “verdadeiro presidente” do Brasil. Depois, suavizou o termo para “líder”, mas manteve o tom de contestação ao resultado das urnas.

Agora, quase um ano e meio depois, a estratégia mudou. O tom é de normalidade: corte de cabelo caro, conversa com clientes, negação de irregularidades. A esposa teria decidido a viagem “espontaneamente”, e amigos no exterior teriam atuado apenas como “torcida”.

O que observar daqui para frente

O passaporte do senador segue retido por determinação judicial brasileira. A permanência nos EUA depende de visto válido e da ausência de pedido de extradição ou deportação — cenário improvável no curto prazo, mas tecnicamente possível se a investigação sobre Willer Tomaz avançar para pedidos de cooperação internacional.

Para investidores e analistas de risco político, o ponto de atenção não é o valor do corte, mas a contradição entre a narrativa de autonomia financeira e a logística de alto custo bancada por aliados estrangeiros. Enquanto a Justiça brasileira não fechar o inquérito, a “torcida” em Miami continua — mas o placar segue indefinido.