Economia

O choque de US$ 3,2 tri na IA: o que ninguém explicou sobre a recuperação…

Gráfico de queda acentuada do Nasdaq 100 com recuperação parcial, representando perda de US$ 3,2 tri em ações de IA
Nasdaq 100 caiu 1,4% recuperando parte dos US$ 3,2 tri perdidos no pior dia desde 2020.

Wall Street estancou a sangria nesta sexta-feira (6), mas a recuperação mal arranhou o prejuízo de US$ 3,2 trilhões evaporados no dia anterior. O Nasdaq 100 subiu 1,4% após o pior tombo desde março de 2020, enquanto o S&P 500 avançou tímidos 0,3%. A pergunta que fica: foi apenas um alívio técnico ou o risco político sobre data centers realmente arrefeceu?

O gatilho que fez fundos hedge travarem a venda

A vitória democrata nas eleições de meio de mandato acendeu o alerta: a expansão de data centers — ossatura da revolução da IA — poderia ser freada por regulação ambiental e energética. O epicentro foi o Texas, maior polo de infraestrutura do país, onde a eleição para o governo estadual virou termômetro do setor.

Mas a liquidação de 6,4% no Nasdaq e 4,4% no S&P 500 teve um motor oculto. Segundo Ajay Rajadhyaksha, do Barclays, o resultado das urnas não justificava a magnitude do pânico. O que aconteceu foi um desmonte forçado de posições alavancadas: fundos hedge que apostavam pesado em chips e IA foram obrigados a vender na marra, amplificando a queda.

Nvidia e Micron: o termômetro do medo

Os números das duas maiores vítimas dimensionam o estresse:

  • Nvidia: -9% na quinta (perda de US$ 400 bi em valor de mercado); +2,8% na sexta
  • Micron: -17% na quinta; +5,1% na sexta

A recuperação parcial desta sexta devolveu menos de 10% dos 334,89 pontos perdidos pelo S&P 500 no pregão anterior. Para contextualizar: desde 1928, o índice costuma recuperar em média 46% no dia seguinte a tombo de 4% ou mais. A fraqueza do rebote sinaliza que o choque de confiança persiste.

A virada no Texas que acalmou (parte do) mercado

A democrata Gina Hinojosa, eleita governadora, foi às pressas esclarecer: a moratória planejada para data centers valerá apenas para novas licenças e será temporária. Projetos já encaminhados para 2027 não seriam afetados. A fala funcionou como antídoto imediato para o pânico setorial.

Arun Sai, da Pictet Asset Management, resume a leitura técnica: “Os fundamentos de lucros e economia não mudaram o suficiente para justificar a liquidação”. Ele não descarta compras de oportunidade até o fim do ano, sobretudo em papéis de momentum que foram varridos.

O contágio global que o mercado ignora

Enquanto Nova York ensaiava o alívio, a Ásia absorvia o impacto cheio. O Nikkei 225 despencou 6% — pior dia desde a guerra comercial de abril de 2025. O Kospi sul-coreano, pesado em semicondutores, tombou na mesma proporção. Na Europa, sem as gigantes de tech, o Stoxx 600 limitou a queda a 1,1%.

A assimetria revela onde o risco real está precificado: cadeia de suprimentos de chips e infraestrutura de IA. O mercado americano pode ter “entendido” o recado do Texas, mas Tóquio e Seul ainda estão processando a conta.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam se o piso se segura ou se abre nova perna de baixa: (1) discurso do Fed na próxima semana — juros mais altos por mais tempo sufocam valuations de crescimento; (2) dados de inflação ao consumidor (CPI) — surpresa altista reacende venda em tech; (3) execução orçamentária dos gigantes (Microsoft, Meta, Amazon) — qualquer sinal de corte em capex de data centers valida o medo original.

Mike Zigmont, do Visdom Investment Group, deixa o alerta final: “A velocidade com que o mercado analisou e explicou o ocorrido não me parece razoável. Deveria haver mais cautela.” Quem comprou a recuperação de sexta apostou na tese de “ruído político passageiro”. O tempo dirá se foi oportunidade ou armadilha.