Justiça

STF solta empresário do esquema do INSS: tornozeleira e silêncio até março

Ministro André Mendonça do STF decide soltura de empresário do esquema INSS com tornozeleira eletrônica
STF converte prisão preventiva em domiciliar para Maurício Camisotti, monitorado por tornozeleira até março.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou nesta quinta-feira (5) a substituição da prisão preventiva por domiciliar do empresário Maurício Camisotti, preso desde setembro de 2025 sob suspeita de operar descontos irregulares em benefícios previdenciários. A decisão, mantida em sigilo, impõe monitoramento eletrônico e veto a contato com outros investigados.

O que muda na prática a partir de agora

Camisotti deixa o regime fechado após 14 meses, mas continua sob vigilância constante. A tornozeleira eletrônica rastreia deslocamentos em tempo real, e qualquer violação de perímetro autorizado aciona alerta imediato à central de monitoramento. A proibição de comunicação com demais investigados busca blindar a apuração contra combinação de versões.

Para o empresário, a medida representa alívio parcial: ele poderá despachar de casa com advogados, mas segue sem acesso a contas bancárias bloqueadas e sem autorização para deixar o Distrito Federal sem aval judicial.

Por que a prisão preventiva caiu

A defesa argumentou — e Mendonça acolheu — que a custódia antecipada perdeu fundamento. O inquérito já colheu depoimentos-chave, quebrou sigilos telemáticos e bancários, e não há indícios recentes de obstrução. O entendimento do STF veda que a prisão cautelar funcione como antecipação de pena, princípio reforçado em julgamentos recentes da Corte.

Em nota, os advogados afirmaram que o cliente “aguardará o desfecho da investigação e de eventual processo cumprindo todas as medidas restritivas determinadas”.

O esquema dos descontos: números que assustam

A investigação apura a atuação de uma organização que teria cooptado servidores e intermediários para inserir consignações não autorizadas em folhas de pagamento do INSS. Estimativas preliminares da Polícia Federal apontam:

  • R$ 1,2 bilhão em desvios potenciais entre 2021 e 2024
  • 4,3 milhões de benefícios com pelo menos um desconto suspeito
  • 18% dos segurados afetados sequer perceberam a cobrança nos primeiros 90 dias

Camisotti é apontado como operador financeiro de uma das frentes do esquema, responsável por repassar valores a empresas de fachada e contas no exterior.

Os próximos passos que o mercado deve monitorar

A soltura não encerra o caso. O inquérito segue sob relatoria de Mendonça após devolução do ministro Edson Fachin, e a Procuradoria-Geral da República ainda deve se manifestar sobre eventuais denúncias. Três frentes merecem atenção:

  • Delacões em negociação: ao menos dois investigados sinalizaram interesse em colaborar; homologação pode ampliar o alcance da apuração para instituições financeiras parceiras.
  • Recuperação de ativos: a PF rastreia R$ 340 milhões em contas no Uruguai, Panamá e Ilhas Cayman; decisões de bloqueio internacional dependem de cooperação jurídica já solicitada.
  • Impacto regulatório: o INSS prepara nova norma de validação biométrica para consignações, com testes previstos para março de 2027 — medida que pode reduzir fraudes, mas eleva custo operacional para bancos e fintechs.

O que observar daqui para frente

Investidores e gestores de fundos com exposição a consignado privado devem acompanhar a tramitação da nova resolução do CNPS (Conselho Nacional de Previdência Social), que endurece regras de habilitação de entidades consignatárias. A primeira versão do texto prevê capital social mínimo de R$ 50 milhões e auditoria independente semestral — barreiras que tendem a concentrar o mercado nos grandes bancos. Enquanto isso, a tornozeleira de Camisotti transmite dados a cada 30 segundos; qualquer anomalia recoloca a prisão preventiva na mesa em questão de horas.