O Paraguai enfrenta sua maior crise institucional em anos após a liquidação do banco digital ueno arrastar o presidente Santiago Peña para um processo de impeachment relâmpago. Três milhões de correntistas e US$ 850 milhões em depósitos — incluindo recursos da previdência social — estão no centro do furacão. O desfecho no Senado nesta sexta-feira (6) definirá não apenas o futuro do mandatário, mas a credibilidade do sistema financeiro local.
O estopim: um banco, 3 milhões de clientes e um buraco bilionário
Na terça-feira (3), o Banco Central do Paraguai decretou a liquidação do ueno após constatar insuficiência de capital para honrar compromissos. A origem do problema: empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador, o Grupo Vázquez.
A instituição concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos, dos quais uma fatia relevante pertencia ao Instituto de Previdência Social (IPS). O fechamento repentino deixou milhões de pessoas sem acesso ao próprio dinheiro — e acendeu o sinal de alerta em todo o sistema bancário.
Contágio imediato: o medo de uma corrida bancária
No dia seguinte, relatos de instabilidade nos aplicativos de outros bancos proliferaram. A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) emitiu nota garantindo normalidade operacional, mas admitiu volume atípico de solicitações de portabilidade de contas oriundas do ueno.
Para investidores e empresários, o risco sistêmico é a variável crítica. Embora a Asoban afirme que os demais bancos estão capitalizados, a confiança — ativo mais frágil do setor — foi abalada.
O elo político: Peña, o Grupo Vázquez e o conflito de interesses
Até março de 2025, Santiago Peña era acionista do Grupo Vázquez. A oposição argumenta que essa proximidade configura conflito de interesses na regulação e na fiscalização do banco que acabou liquidado. O pedido de impeachment, protocolado na quinta-feira (5), acusa o presidente de:
- Conflito de interesse direto na supervisão do setor financeiro;
- Manipulação de normas para beneficiar o grupo controlador;
- Desvio de recursos previdenciários depositados no ueno;
- Encobrimento de irregularidades pelo Banco Central.
Cronologia de 48 horas que abalaram o Palácio
A velocidade dos eventos surpreendeu até analistas experientes:
- Terça (3): Liquidação do ueno pelo Banco Central.
- Quarta (4): Pânico digital e corrida por portabilidade.
- Quinta (5) — manhã: Oposição apresenta impeachment contra Peña e o vice Pedro Alliana.
- Quinta (5) — tarde: Câmara aprova abertura do processo por 78 a 0; pedido contra o vice é rejeitado.
- Quinta (5) — noite: Peña anuncia renúncia em vídeo; Congresso inicia análise, mas governistas derrubam quórum e sessão é suspensa.
- Sexta (6): Senado retoma julgamento do impeachment; Peña promete comparecer para defesa.
O xadrez parlamentar: por que a renúncia não colou
A estratégia de Peña era clara: renunciar para permitir transição rápida ao vice Alliana, evitando o desgaste do impeachment. A oposição, porém, calculou que a saída voluntária garantiria ao presidente uma vaga de senador vitalício — com imunidade parlamentar — blindando-o de investigações futuras.
Governistas do Partido Colorado, legenda de Peña, esvaziaram o plenário para impedir a votação da renúncia. Resultado: o presidente permanece no cargo, mas sob julgamento político no Senado.
Cenários para os próximos dias — e o que o mercado deve monitorar
O Senado é o tribunal político final. Se dois terços dos senadores votarem pelo afastamento, Peña deixa a Presidência definitivamente e Alliana assume. Caso contrário, o mandatário retorna ao cargo, mas com capital político severamente erodido.
Para quem opera no Paraguai ou tem exposição ao país, três variáveis merecem atenção redobrada:
- Liquidez do sistema bancário: acompanhar relatórios do Banco Central e da Asoban sobre saques e portabilidade nas próximas semanas.
- Destino dos depósitos do IPS: a recuperação dos recursos previdenciários ditará o custo fiscal da crise.
- Estabilidade da coalizão governista: rachas no Partido Colorado podem paralisar a agenda econômica, incluindo reformas tributárias e de infraestrutura.
O desfecho de sexta-feira não encerra o caso — apenas abre o próximo capítulo. A credibilidade das instituições paraguaias, testada em tempo real, determinará se o país consegue conter a crise no setor financeiro ou se o contágio político-econômico se alastra para 2027, ano eleitoral.
