O Salon, um dos pioneiros do jornalismo online, anunciou o encerramento imediato de suas operações nesta quinta-feira (5) após mais de três décadas. O comunicado, sem assinatura, admite que o modelo de publicação independente “não é mais sustentável” diante da nova realidade comercial do setor. O que essa despedida revela sobre o futuro dos veículos nativos digitais?
O choque na redação e o fim repentino
A diretora de conteúdo Erin Keane revelou no Bluesky que a equipe editorial foi informada pela manhã de que o site cessaria atividades com efeito imediato. Não houve aviso prévio, transição ou plano de contingência para os profissionais. Um porta-voz confirmou por e-mail que alternativas ainda são analisadas, mas garantiu que o arquivo histórico deve permanecer no ar — por enquanto.
Trajetória: da fronteira inexplorada à referência progressista
Fundado em 1995 por David Talbot, o Salon nasceu como revista digital voltada a livros, cultura e ideias — antes da popularização dos blogs. Teve apoio inicial da Apple, Adobe e da rede Borders. Ao longo dos anos, expandiu para política e tecnologia com viés progressista, revelando talentos como Glenn Greenwald, Steve Kornacki (hoje analista de dados da NBC) e Jake Tapper (correspondente da CNN).
Trocas de controle e a aposta em cripto
A instabilidade financeira marcou a história recente do veículo. Veja a linha do tempo das aquisições:
- Agosto de 2019: vendida por US$ 5 milhões (R$ 27,4 mi) a Chris Richmond e Drew Schoentrup.
- Novembro de 2023: adquirida pela Find.co, empresa de Malta descrita como “ecossistema de marketing de performance” para marcas de criptomoedas. Valor não divulgado.
A mudança para um grupo ligado a marketing de criptoativos sinalizou uma guinada no modelo de negócio que, ao que tudo indica, não se sustentou.
O que isso ensina para quem investe em mídia
O fechamento do Salon não é um caso isolado. Veículos nascidos na primeira onda da internet enfrentam o mesmo dilema: como monetizar audiência sem depender de plataformas terceiras ou apostas arriscadas em novos modelos? A transição para a Find.co ilustra o risco de entregar ativos jornalísticos a grupos cujo core business não é jornalismo.
O que observar daqui para frente
Três sinais merecem atenção nos próximos meses: o destino do arquivo histórico (ativo valioso para SEO e licenciamento), o destino dos jornalistas dispensados — muitos com passagem por grandes redes — e a reação do mercado a aquisições de veículos legados por players de setores adjacentes. A lição prática: modelo de receita diversificado e alinhamento entre controle acionário e missão editorial deixaram de ser opcionais. São condições de sobrevivência.
