A Sabep fechou o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 1,39 bilhão, queda de 35,7% frente ao ano anterior, pressionada pelo custo da dívida que financia sua expansão. No mesmo relatório, porém, a companhia aprovou R$ 2,64 bilhões em juros sobre capital próprio — um aceno forte ao acionista em meio ao ciclo pesado de investimentos.
O resultado operacional conta outra história: o Ebitda saltou quase 30%, superando as projeções dos analistas. Entender essa dicotomia é essencial para quem acompanha o setor de saneamento ou tem a ação na carteira.
O peso dos juros mascara a geração de caixa
O lucro contábil recuou essencialmente pela linha financeira. A empresa captou recursos robustos para tocar o maior plano de investimentos da história, e a conta dos juros chegou ao resultado final. Não há deterioração operacional por trás do número.
Prova disso é o Ebitda de R$ 3,98 bilhões, alta de 29,7% na comparação anual. Mesmo excluindo R$ 300 milhões de crédito tributário não recorrente, o Ebitda ajustado avança 13,8%, para R$ 3,65 bilhões — acima do consenso de mercado (R$ 3,56 bi). A máquina de caixa gira mais rápido.
Receita acelera com tarifa e novas ligações
A receita líquida atingiu R$ 10,14 bilhões, crescendo 7,6%. O motor principal foi a receita de saneamento (R$ 5,96 bi, +9%), impulsionada por dois pilares concretos:
- Reajuste tarifário: repasse inflacionário contratual;
- Crescimento de volume: novas ligações de água e esgoto expandindo a base faturável.
Esse combinação — preço maior e volume maior — dá previsibilidade à receita futura, algo raro em ciclos de alta de juros.
O “presente” ao acionista: JCP de R$ 2,64 bi
O conselho aprovou distribuição de R$ 2,64 bilhões em Juros sobre Capital Próprio (JCP), equivalentes a R$ 0,75 por ação. O montante representa cerca de 50% do lucro acumulado em nove meses.
Na prática, a Sabesp sinaliza que, apesar do endividamento elevado para construir ativos de longo prazo, a geração de caixa corrente permite remunerar o sócio agora. O yield implícito na cotação de fechamento (R$ 25,03) reforça o atrativo de renda da tese.
Capex recorde e carteira de R$ 44 bi: o tamanho da aposta
Foram R$ 4,5 bilhões investidos apenas no trimestre (+13,8%), totalizando R$ 12 bilhões nos nove meses. A carteira de obras contratadas chega a R$ 44,2 bilhões — um número que dimensiona o compromisso com a universalização até 2033.
Esse volume explica a alavancagem e a despesa financeira. O risco de execução existe, mas a escala contratada reduz a incerteza sobre pipeline de receitas futuras.
Reação do mercado e o que observar daqui para frente
A ação fechou em leve queda de 0,8%, a R$ 25,03, sugerindo que o mercado já precificava o lucro menor e focava no Ebitda forte e no JCP gordo. Os próximos gatilhos estão no radar:
- Trajetória da dívida: se a geração de caixa operacional mantiver o ritmo, a alavancagem deve estabilizar ou cair em 2025;
- Revisão tarifária ordinária: eventuais ganhos de eficiência ou revisão de base de ativos podem turbinar a receita a partir do próximo ciclo;
- Execução do capex: transformar a carteira de R$ 44 bi em ativos operacionais no prazo é a variável-chave para validar o valuation atual.
Para o investidor, a equação segue assim: lucro contábil volátil no curto prazo, geração de caixa robusta e crescente, remuneração atrativa e um plano de investimentos que, se entregue, garante monopólio regulado por décadas. O trimestre não muda a tese — apenas reforça os dois lados da moeda.
