O risco-país da Argentina saltou 5,64% nesta quinta-feira (5), atingindo 1.042,88 pontos — o nível mais alto desde dezembro de 2024. O gatilho não veio de Buenos Aires, mas de Washington.
A virada democrata nas duas Casas do Congresso americano acendeu um alerta imediato: até que ponto o governo Milei perde respaldo financeiro e político sem a blindagem direta de Donald Trump?
O que os números mostram agora
O movimento foi violento e concentrado. O título soberano com vencimento em setembro de 2029 caiu 2,29%, para US$ 48,289, enquanto o rendimento exigido pelos investidores disparou de 8,4% para 9,3% ao ano.
Em termos práticos: quem empresta à Argentina hoje cobra prêmio quase 1 ponto percentual maior do que na véspera. A relação é mecânica — preço cai, juro sobe — mas o recado é político.
- Risco-país: 1.042,88 pontos (+5,64% no dia)
- Título 2029: US$ 48,289 (-2,29%)
- Yield implícito: 9,3% (era 8,4%)
- Patamar anterior comparável: dezembro de 2024
Por que o Congresso dos EUA mexe com o peso argentino
Na terça-feira (3), os democratas confirmaram maioria na Câmara (251 a 155) e no Senado (pelo menos 54 cadeiras). O controle das duas Casas tira de Trump a capacidade de aprovar pacotes de ajuda bilateral sem negociação.
Em outubro de 2025, foi diferente. Duas semanas antes da eleição legislativa argentina, Milei esteve na Casa Branca. Trump declarou a jornalistas: “Se Milei não ganhar, não seremos generosos com a Argentina”. Dias depois, o governo americano anunciou US$ 20 bilhões em resgate financeiro para evitar uma crise cambial.
O vice-secretário de Estado, Christopher Landau, chegou a classificar a Argentina como “o país mais alinhado aos Estados Unidos atualmente”. Esse alinhamento, agora, tem um freio institucional.
O fator contágio global não pode ser ignorado
Não é só política. O S&P 500 tombou 4,16%, o Dow Jones recuou 3,44% e o Nasdaq liderou as perdas com -5,52%. Em dias de aversão global ao risco, ativos emergentes costumam sangrar mais.
“Ativos de risco e mercados emergentes podem ser contaminados por esse movimento, com aumento do prêmio de risco sendo um dos efeitos de um ambiente mais cauteloso”, explica Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad. “A possibilidade de menor apoio de Washington ao governo Milei pode estar pesando mais.”
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis vão ditar se o pico de 1.042 pontos vira teto ou piso: a velocidade de negociação do novo Congresso americano para eventuais pacotes ao FMI com viés argentino; a reação do BCRA (Banco Central argentino) às reservas; e a disposição de Milei em ceder em pautas domésticas para manter governabilidade.
O fechamento desta quinta-feira deixa um recado claro: o custo de financiamento da Argentina voltou a subir não pelo que acontece em Buenos Aires, mas pelo que mudou em Washington. Para quem tem exposição a ativos argentinos, a conta política acabou de ficar mais cara.
