O Brasil registrou a maior entrada mensal de dólares do ano em outubro: US$ 18,151 bilhões. O dado surpreende porque coincide com o período eleitoral mais tenso da história recente, sugerindo que o mercado reagiu de forma oposta ao pânico inicial.
De onde veio todo esse dinheiro?
O Banco Central divulgou os números preliminares do câmbio contratado nesta quarta-feira (4). O saldo total positivo se divide em dois pilares quase equivalentes, o que revela uma entrada diversificada e não dependente de um único vetor.
- Canal financeiro: Entrada líquida de US$ 8,812 bilhões. Aqui entram investimentos em carteira, lucros e dividendos, juros e Investimento Direto no País (IDP).
- Canal comercial: Superávit de US$ 9,339 bilhões. Resultado direto da balança comercial, com exportações superando as importações no mês.
A semana que desafiou as previsões dos analistas
O detalhe mais intrigante está no recorte semanal. Entre 26 e 30 de outubro — dias imediatamente posteriores ao segundo turno — o fluxo líquido foi de US$ 9,498 bilhões.
Na prática, mais da metade do total mensal entrou em apenas cinco dias úteis. Isso ocorreu justo quando a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrubava os ativos brasileiros no primeiro momento, assustando parte dos investidores.
Por que o fluxo inverteu o medo inicial?
Especialistas apontam que a liquidação inicial criou pontos de entrada atrativos para fundos globais. Com a curva de juros real elevada e ativos descontados, o “sangramento” durou pouco. A entrada massiva na semana seguinte sinaliza que o capital estrangeiro viu oportunidade onde o mercado local via risco.
Além disso, o superávit comercial robusto funcionou como âncora. Mesmo com volatilidade cambial, o dólar físico continuou entrando via exportações, impedindo uma desvalorização mais brusca da moeda nacional.
O que observar daqui para frente
Os dados são preliminares e referem-se ao câmbio contratado, ou seja, operações já fechadas mas não necessariamente liquidadas. O próximo relatório do BC confirmará se o movimento se sustentou em novembro.
Dois gatilhos merecem monitoramento constante: a tramitação da PEC da Transição (ou nova âncora fiscal) no Congresso e as decisões de política monetária do Federal Reserve. Qualquer ruído nesses eixos pode reverter o fluxo tão rápido quanto ele apareceu.
