A demanda por óleos vegetais na mistura do diesel disparou 122% desde 2020 apenas no Brasil, Tailândia e EUA, empurrando o consumo conjunto para 34,3 milhões de toneladas. Se a União Europeia entrar na conta, o volume salta para 40,3 milhões. O que começou como apelo ambiental virou estratégia de segurança energética — e o reflexo já aparece no bolso de quem compra óleo de cozinha.
Por que a mistura subiu tanto e tão rápido
Guerras e embargos no fornecimento de petróleo forçaram governos a elevarem o percentual de biodiesel no diesel fóssil. A Indonésia lidera com 50% de óleo de palma na mistura desde julho. Malásia e Tailândia adotaram 20%. No Brasil, o B16 (16% de mistura) deve entrar em vigor em março, dobrando o consumo nacional de óleo de soja de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas.
Nos EUA, reformas recentes no sistema energético projetam alta de 5 para 8,1 milhões de toneladas. Cada ponto percentual a mais na mistura representa milhões de toneladas de óleo desviadas da mesa para o tanque.
O efeito direto no preço da gôndola
Desde 2020, a inflação média dos alimentos acumula 73%. O óleo de soja, porém, saltou 145% no mesmo período, segundo a Fipe. Quebras de safra, estoques globais apertados e a corrida pelo biodiesel formaram uma tempestade perfeita. O consumidor final paga a conta duas vezes: no litro do diesel e na garrafa de óleo.
Soja em expansão recorde sustenta a demanda
A oleaginosa acompanhou o ritmo. A produção mundial saiu de 261 milhões de toneladas na safra 2010/11 para projetados 443 milhões em 2026/27, conforme o USDA. O Brasil sozinho deve colher 182 milhões nesta safra — mais que o dobro dos 75 milhões de 2011, segundo a Conab.
O óleo de soja e o de palma dominam o mercado global de óleos vegetais, com 75 e 79 milhões de toneladas respectivamente. Canola (38 mi) e girassol (24 mi) completam o quadro.
Quem ganha e quem perde nesse tabuleiro
- Produtores de soja e palma: demanda garantida e preços sustentados.
- Indústria de biodiesel: escala e incentivos regulatórios.
- Importadores líquidos (ex.: Índia): gargalo de oferta — o país importa cerca de 16 milhões de toneladas/ano para alimentação.
- Consumidor final: pressão inflacionária persistente no óleo de cozinha.
A macaúba e a busca por mais óleo por hectare
Enquanto a soja rende em torno de 600 a 800 litros de óleo por hectare, a macaúba promete 7 a 10 vezes mais. A palmeira nativa brasileira entra no radar como alternativa para aliviar a disputa por área — mas ainda está em fase de expansão comercial e não resolve o curto prazo.
O que observar daqui para frente
A implementação do B16 no Brasil em março é o próximo gatilho de alta. Acompanhe também a safra 2024/25 da soja na América do Sul, os estoques de óleo de palma no Sudeste Asiático e eventuais mudanças na meta de mistura da Indonésia. Qualquer desvio nesses pilares reverte ou acelera a pressão sobre preços — tanto no diesel quanto na despensa.
