Economia

M&As no Brasil: valor explode 31%, mas negócios desabam — o que está por trás?

Gráfico mostra valor de M&As no Brasil em alta de 31% enquanto número de negócios cai 31% no 3º tri de 2026
Valor das fusões e aquisições sobe, mas volume de transações desaba no terceiro trimestre de 2026.

O Brasil movimentou US$ 49,2 bilhões (R$ 268,6 bilhões) em fusões e aquisições no terceiro trimestre de 2026, alta de 31% frente ao mesmo período do ano anterior. Mas há um detalhe que muda toda a leitura: o número de operações caiu 31,15%, para 968 transações.

Menos negócios, valores maiores. O mercado está seletivo como nunca.

Qualidade sobre quantidade: a nova regra do jogo

Segundo André Nogueira, líder de soluções para M&As da Aon no Brasil, a dinâmica mudou. Ativos de qualidade, diligência rigorosa e capacidade de fechamento passaram a valer mais do que volume.

O resultado é uma concentração inédita. As grandes transações puxam o valor total para cima, enquanto operações menores perdem espaço.

Como o dinheiro se distribuiu por segmento

  • M&A tradicional: 518 deals — US$ 28,26 bi (R$ 154,3 bi)
  • Private equity: 62 deals — US$ 10,89 bi (R$ 59,4 bi)
  • Aquisição de ativos: 223 deals — US$ 8,14 bi (R$ 44,4 bi)
  • Venture capital: 167 deals — US$ 1,89 bi (R$ 10,3 bi)

O private equity, embora com poucas operações, respondeu por 22% do valor total — sinal de apetite por teses de transformação em empresas maduras.

Setores: tecnologia lidera em volume, mas encolhe

Internet, software e serviços de tecnologia concentraram 161 transações, mantendo a liderança em quantidade. O porém: o volume financeiro do setor recuou 39% na comparação anual.

O mercado imobiliário ficou em segundo com 147 deals, praticamente estável (-1%). A estabilidade chama atenção em um cenário de juros ainda elevados.

Os mega-deals que moveram a agulha

Três operações explicam grande parte da alta no valor agregado:

  • Afya + Nexa Resources: cerca de US$ 2,65 bi (R$ 14,5 bi) combinados
  • South32 (alumínio): aquisição de ativos por US$ 1,16 bi (R$ 6,3 bi)

Sem esses nomes, o crescimento de 31% seria bem mais modesto.

Brasil dita o ritmo na América Latina

O país respondeu por 61% de todo o valor movimentado na região em M&A. A América Latina como todo registrou 1.720 negociações nos nove primeiros meses do ano (-26%), somando US$ 78,8 bi (-5,1%).

O padrão se repete nos vizinhos:

  • Colômbia: -19,6% em deals, +58,5% em valor
  • Peru: -19,5% em deals, +122% em valor

Menos transações, tickets maiores. É um fenômeno regional.

O que esperar para 2027

A Aon projeta recuperação gradual no número de transações. Para Pedro da Costa, chefe de M&A para a América Latina na consultoria, três variáveis vão ditar o ritmo:

  • Custo do capital
  • Previsibilidade das regras econômicas e comerciais
  • Convergência entre expectativas de preço de compradores e vendedores

Enquanto o spread entre quem compra e quem vende seguir largo, o volume de deals travado tende a persistir — mesmo com liquidez disponível.

O que observar daqui para frente

Fique de olho na taxa Selic e nas curvas de juros longas: qualquer alívio sustentável reabre janelas para operações de médio porte. Acompanhe também a agenda regulatória — reformas tributárias e marcos setoriais podem destravar teses travadas há trimestres. Por fim, monitore o private equity: quando os fundos começam a competir por ativos de qualidade, o valuation médio sobe e o número de deals costuma seguir.