O ministro Dario Durigan confirmou que o governo prepara um ajuste fiscal gradual, mas a forma como ele será costurado mantém investidores em alerta máximo. A promessa é respeitar os compromissos de campanha sem abandonar a meta de melhorar as contas públicas. O problema é que ninguém sabe ainda quando — nem como — as peças vão se encaixar.
O que está na mesa: PEC, congelamento e o centro da meta
A equipe econômica desenha uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para ganhar margem de manobra. O texto permitiria perseguir o centro da meta fiscal — e não apenas o limite inferior — além de autorizar o congelamento extra de recursos do Orçamento se a trajetória da dívida exigir.
Durigan evitou cravar datas. Disse apenas que as discussões seguem em andamento e que o presidente Lula ainda precisa avaliar os cenários antes de bater o martelo. Enquanto isso, o mercado segue cobrando o anúncio do pacote e do próximo ministro da Fazenda.
O fantasma de Lara Resende e a taxa Selic
Paralelamente, o ministro buscou apagar o incêndio em torno de André Lara Resende. Um dos pais do Plano Real, ele defende um teto para a Selic e a desindexação da taxa básica da rolagem da dívida — hoje em 82,9% do PIB. A ideia, classificada como heterodoxa, gerou temor imediato nos ativos brasileiros.
Durigan foi direto: a proposta é “incipiente” e tem “várias deficiências”. Garantiu ainda que não há agenda marcada entre Lula e o economista. As seis indicações ao Banco Central, prometeu, seguirão “rigor técnico”.
A sucessão na Fazenda que trava decisões
Empresas e fundos adotaram compasso de espera. A definição de quem comanda a pasta a partir de 2025 virou pré-condição para traçar estratégias de quatro anos. Durigan não confirmou nem negou se fica; disse apenas não ter tratado do tema com o presidente.
Nos bastidores, dois nomes ganham força:
- Rafael Fonteles (PT), governador do Piauí;
- Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente.
O cenário perigoso que herda o Lula 4
Especialistas concordam: a combinação atual é rara e arriscada. Juros altos, dívida elevada, crescimento desacelerando e choques de oferta simultâneos — petróleo, El Niño nos alimentos, reforma tributária e o fim da escala 6×1.
Some-se a isso a conta das promessas de campanha. A Instituição Fiscal Independente (IFI) estima R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões de gastos adicionais apenas em 2027. Desde a reeleição, ativos brasileiros se desvalorizaram forte e o Boletim Focus já projeta juros, inflação e dólar mais altos até 2029.
A ofensiva política contra o “mercado”
A resposta inicial do governo frustrou quem esperava sinalização dura. PT e ministros subiram o tom contra o que chamam de “chantagem, terrorismo e especulação” do setor financeiro.
Rui Costa (PT) cobrou que agentes pensem no país. Guilherme Boulos (PSOL) afirmou que quem pede corte em sociais “não entendeu a eleição”. O próprio Durigan, em entrevista, não descartou economizar, mas classificou a pressão como chantagem que não pode se sobrepor à vontade popular.
Os números que não mentem: déficit de R$ 90 bi
O quadro fiscal já mostra fissuras. De janeiro a setembro, os gastos federais somaram R$ 1,9 trilhão — alta real de 5,4% sobre igual período do ano anterior. A arrecadação cresceu mais (6,5%), mas não o bastante: o déficit primário, que exclui juros, fechou em R$ 90,2 bilhões.
Foi o terceiro ano seguido no vermelho desde 2014, quando o país rompeu uma sequência de 16 anos de superávits. Só 2021 e 2022 trouxeram alívio temporário.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo dos próximos meses: o texto final da PEC fiscal, o nome do novo ministro da Fazenda e a reação do Banco Central à dinâmica da dívida. Se o ajuste vier diluído ou tardio, a trajetória de 82,9% do PIB pode se tornar autossustentável — no pior sentido. Para quem decide capital, a hora é de monitorar sinais concretos, não discursos.
