Economia

Você não vai acreditar: Selic sobe para 13,5% e dólar salta para R$ 5,34 no Focus

Gráfico mostra Selic a 13,5% e dólar a R$ 5,34 no Boletim Focus 2024
Projeções do Focus indicam juros altos até 2029 e dólar pressionado para R$ 5,34 em 2026.

O primeiro boletim Focus após o segundo turno trouxe uma reviravolta nas contas dos analistas: a Selic terminal subiu para 13,5% este ano e a moeda americana foi projetada a R$ 5,34 para 2026. Mas o choque não para no curto prazo; as projeções estendem o ciclo de juros altos até 2029 e derrubam o PIB. Entenda o tamanho da conta que o mercado começou a precificar.

O choque imediato: juros param de cair e dólar dispara

Na semana anterior, a aposta majoritária era de dois cortes seguidos de 0,25 ponto percentual — novembro e dezembro —, levando a taxa a 13,25%. O relatório divulgado nesta terça-feira (3) mudou o roteiro: o corte desta semana está mantido, levando a Selic a 13,5%, mas a reunião de dezembro deve trazer uma pausa.

O câmbio reagiu com ainda mais força. A mediana para o dólar no fim de 2026 saltou de R$ 5,05 para R$ 5,34, uma alta de quase 6% em uma única leitura. O movimento sinaliza que o prêmio de risco embutido na moeda foi recalculado para cima quase que instantaneamente.

O cenário de longo prazo: juros estruturalmente mais altos

Se o curto prazo assusta, a curva longa assusta mais. Os economistas elevaram a Selic terminal para todos os horizontes da pesquisa, empurrando a “taxa neutra” implícita para patamares que poucos previam há um mês. Veja a comparação direta:

  • 2027: 12,50% (ante 11,75%)
  • 2028: 11,00% (ante 10,00%)
  • 2029: 10,25% (ante 10,00%)

A inflação acompanha a escalada. O IPCA projetado para 2024 foi a 5,22%, estourando o teto da meta. Para os anos seguintes, as estimativas convergem para algo entre 3,98% e 4,76% — ainda acima do centro da meta (3%) em todo o horizonte relevante.

PIB freia e mostra a conta da incerteza

O lado real da economia não escapou ileso. A previsão de crescimento para este ano caiu de 1,80% para 1,76%. Parece pouco, mas a revisão se intensifica no médio prazo: 2027 recuou de 1,31% para 1,20% e 2028 passou de 1,81% para 1,80%. Apenas 2029 ficou estável em 2,0%.

O recado é claro: o mercado precifica um custo de capital mais caro por mais tempo, o que inibe investimento e consumo, travando a expansão potencial. A combinação de juros reais elevados e câmbio pressionado cria um cenário de “estagflação leve” nas planilhas dos estrategistas.

O que observar daqui para frente

O próximo gatilho não virá da política monetária — o Copom já sinalizou o passo —, mas sim da âncora fiscal. A tramitação do novo arcabouço e a capacidade do governo de entregar superávit primário em 2024 ditarão se essa curva de juros se sustenta ou se abre espaço para quedas mais agressivas em 2025. Para o investidor, a lição prática é uma só: alongue a duration com cautela, proteja a carteira com indexadores à inflação e mantenha caixa para capturar oportunidades caso o prêmio de risco comece a ceder.