Justiça

Senador nos EUA vota PEC no Brasil: o truque que a Câmara já proibiu

Senador Flávio Bolsonaro em sessão remota do Senado votando PEC da Segurança Pública dos EUA
Flávio Bolsonaro votou a PEC da Segurança Pública remotamente de Miami enquanto Câmara já proibiu a prática.

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) registrou presença e votou na PEC da Segurança Pública nesta terça-feira (3) sem sair de Miami. O senador está fora do país desde 28 de novembro e não comunicou oficialmente sua ausência ao Senado.

A manobra expõe um vácuo regulatório: a Câmara vedou votações do exterior em novembro, mas o Senado ainda permite a participação remota em sessões semipresenciais. Entenda por que isso importa para o seu mandato e para as próximas votações.

Como a votação aconteceu na prática

A sessão do Plenário era semipresencial, formato que autoriza senadores a votar pelo celular habilitado. Flávio enfrentou dificuldades técnicas para acessar o sistema.

O líder do PL no Senado, Carlos Portinho (PL-SP), acionou diretamente o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). O argumento: o mandato está ativo e a sessão prevê participação remota.

Resultado: o número de telefone do senador foi habilitado a tempo de ele votar na proposta de emenda constitucional. Ele também poderia ter pedido a palavra por videoconferência.

O que a Câmara decidiu — e por que o Senado não seguiu

Em novembro de 2024, a Mesa da Câmara acolheu parecer da Secretaria-Geral que proíbe deputados de registrar presença ou votar de fora do território nacional, exceto em missões oficiais autorizadas.

A decisão veio após o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), condenado a 16 anos por tentativa de golpe, deixar o Brasil em setembro e participar remotamente da votação do Projeto Antifacção.

  • Fundamento do parecer: o exercício do mandato é “por natureza, presencial” segundo o Regimento Interno.
  • Exceção: apenas missões oficiais devidamente autorizadas pela Casa.
  • Participação remota: restrita a hipóteses específicas, herdadas do período pandêmico.

O Senado, até o momento, não editou norma equivalente. A Mesa Diretora não se manifestou sobre como aplicar as regras de mandato a um senador que saiu do país sem comunicado oficial.

Os riscos jurídicos e políticos do silêncio

Flávio Bolsonaro não formalizou pedido de licença nem avisou a Secretaria-Geral da Mesa sobre sua saída. O Regimento Comum do Congresso prevê que a ausência não justificada por mais de 60 dias pode levar à perda do mandato.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam três cenários possíveis:

  • Arquivamento do caso por falta de provocação formal da Mesa.
  • Instalação de processo disciplinar no Conselho de Ética, se houver representação.
  • Edição de ato da Mesa vedando votações do exterior, alinhando o Senado à Câmara.

Mas o efeito mais relevante aparece na credibilidade institucional. A permissão para votar de Miami, enquanto a Câmara proíbe a mesma prática, cria dois pesos e duas medidas no Legislativo federal.

O que observar daqui para frente

A próxima sessão deliberativa do Senado será o teste decisivo. Se Flávio voltar a votar do exterior sem que a Mesa edite regra clara, a pressão por equiparação às normas da Câmara deve crescer — inclusive com questionamentos no Supremo Tribunal Federal.

Para investidores e analistas de risco político, o sinal é claro: a instabilidade regulatória no Congresso segue alta. Acompanhe se a Mesa do Senado publica ato normativo nos próximos dias e se há movimentação no Conselho de Ética. O desfecho desse caso pode ditar o tom das votações de pautas econômicas sensíveis ainda neste semestre.