Tecnologia

O segredo das ‘baterias de água’ que pode transformar a Serra da Ibiapaba

Serra da Ibiapaba no Ceará com represas de hidrelétrica reversível de bombeamento
A topografia da Serra da Ibiapaba permite armazenar energia em 'baterias de água' de 200 MW.

O Brasil acaba de registrar seu primeiro projeto de hidrelétrica reversível na Aneel, e o Ceará já mira a Serra da Ibiapaba para receber uma usina de 200 MW. A tecnologia funciona como uma bateria gigante de água — e pode resolver o maior gargalo das renováveis: o armazenamento.

Mas por que exatamente a Ibiapaba entrou no radar de gigantes como a Casa dos Ventos? A resposta está na topografia.

O terreno que vale ouro

A Serra da Ibiapaba oferece um desnível de cerca de 800 metros na divisa com o Piauí. Para uma usina de ciclo fechado, isso é o equivalente a encontrar petróleo: quanto maior a queda d’água, menor o custo por megawatt-hora armazenado.

Um estudo de P&D de 2024 confirmou “bons parâmetros hidroenergéticos” na região, com queda efetiva de 540 metros e rochas resistentes que reduzem custos de escavação. O presidente do Instituto Brasileiro para a Transição Energética (IBT), Jurandir Picanço, classifica o potencial como excepcional.

Como funciona a ‘bateria de água’

O princípio é simples e eficiente: dois reservatórios artificiais, um no topo e outro na base. Quando a energia sobra — típicamente ao meio-dia, com solar a pleno —, a água é bombeada para cima. Nos horários de pico, ela desce girando turbinas e injetando eletricidade na rede.

A recuperação energética fica entre 70% e 80%. Não é 100%, mas supera qualquer alternativa em escala e duração. Como resume o professor Raphael Amaral (UFC): “Em vez de energia química, usa-se energia cinética da água.”

  • Ciclo fechado: reservatórios artificiais, sem rios envolvidos — menor impacto ambiental
  • Ciclo aberto: conectado a cursos d’água naturais — gestão hídrica mais complexa
  • Semiaberto: híbrido dos dois modelos

O projeto catarinense em Timbé do Sul, pioneiro no registro da Aneel, adota o modelo fechado. A Ibiapaba seguiria o mesmo caminho.

Por que o Brasil acordou tarde

O país tem a segunda maior capacidade hidrelétrica convencional do mundo, mas zerou a conta em reversíveis. Quatro usinas operaram em São Paulo e Rio nos anos 1940 — todas desativadas. A acomodação com a matriz tradicional e a expansão de eólica e solar postergaram a necessidade de armazenamento.

“O Brasil se acomodou. Agora que precisamos de fontes despacháveis, flexíveis, o país passa a se preocupar”, afirma Picanço.

O que muda nos próximos leilões

A virada de chave veio em portaria do MME este ano: usinas reversíveis podem participar dos leilões de reserva de capacidade. Isso cria receita previsível para investidores — o gatilho que faltava para tirar projetos do papel.

O Plano Decenal de Expansão (PDE 2036) projeta 2 GW instalados no Brasil até lá. Hoje, a Europa concentra 32% da capacidade mundial, China 27% e Japão 16%. No Japão, 55% de toda a hidrelétrica já é reversível.

Os gargalos reais

Dois fatores determinam a viabilidade econômica: capacidade instalada e duração do fornecimento. Quanto maiores, menor o custo nivelado. Mas o investimento inicial assusta — e a regulamentação ainda engatinha.

A Aneel reconhece que a tecnologia amplia a flexibilidade do sistema. A EPE aponta custo alto e regulação como principais barreiras. A Casa dos Ventos anunciou intenção de estrear no segmento na Ibiapaba, mas não detalhou estágio nem cronograma.

O que observar daqui pra frente

Três movimentos definem o ritmo: a conclusão do licenciamento em Santa Catarina (referência regulatória), a definição de preços-teto nos leilões de reserva de capacidade e a entrada de players com balanço para absorver CAPEX elevado. Se a Ibiapaba sair do papel, o Nordeste ganha um ativo estratégico: armazenamento de longa duração ao lado do maior cluster eólico-solar do país. Para investidores, o sinal está dado — faltam os contratos.