Jair Bolsonaro opera nos bastidores para definir o próximo presidente do Senado com uma moeda de troca clara: a anistia. Nessa equação, a candidatura do aliado Rogério Marinho (PL-RN) tornou-se secundária. O ex-presidente sinaliza disposição para respaldar a reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP), favorito do Palácio do Planalto, caso o caminho para a anistia seja desobstruído.
A estratégia expõe uma fratura exposta no PL: a prioridade pessoal de Bolsonaro sobrepõe o projeto eleitoral da legenda. Mas o que esse rearranjo significa para a governabilidade e para a pauta econômica nos próximos dois anos?
A moeda de troca: presidência por anistia
O foco da articulação não é a cadeira em si, mas o controle da pauta legislativa. Alcolumbre, se reconduzido, teria o poder de pautar — ou engavetar — projetos sensíveis. Para Bolsonaro, a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro é a “joia da coroa” e justifica qualquer concessão tática.
Setores do PL admitem reservadamente que o sacrifício de Marinho é o preço a pagar. A avaliação interna é de que a sobrevivência política do ex-presidente e de seus aliados mais próximos depende desse perdão legislativo, tornando a disputa pela Mesa Diretora um detalhe operacional.
O xadrez com a esquerda e o “jogo combinado”
A novidade mais relevante é a abertura de canais diretos entre bolsonaristas e a base governista. A dinâmica descrita por interlocutores segue um roteiro previsível: discursos públicos de oposição ferrenha, mas atuação discreta para não obstruir o acordo nos bastidores.
- Cenário 1: Alcolumbre vence com votos da direita e da esquerda; anistia avança em comissões controladas.
- Cenário 2: Resistência interna no PL racha a bancada; Marinho lança candidatura de protesto.
- Cenário 3: STF antecipa julgamentos, tirando o fôlego da negociação legislativa.
Esse “teatro” beneficia diretamente o Planalto. Lula garante um presidente do Senado previsível e alinhado às pautas econômicas (arcabouço fiscal, reforma tributária), enquanto Bolsonaro obtém a contrapartida jurídica que busca. O risco é a credibilidade de ambos perante suas bases radicais.
Impacto direto: instabilidade partidária e sinal ao mercado
Para o investidor e o empresário, o sinal é de pragmatismo brutal. A disposição de trocar um postulante ideológico (Marinho) por um gestor pragmático (Alcolumbre) sugere que a direita institucional prioriza a sobrevivência jurídica sobre a pureza doutrinária.
No curto prazo, a aliança improvável deve garantir fluidez na tramitação de matérias econômicas. Alcolumbre tem histórico de alinhamento com a agenda de mercado — foi ele quem pautou a independência do Banco Central e a reforma da previdência no passado. A anistia, se aprovada, remove um foco de tensão institucional, mas cria outro: a reação do Judiciário.
O que observar daqui para frente
A eleição ocorre em fevereiro de 2025, mas as próximas semanas definem o tabuleiro. Três variáveis decidem o desfecho: a capacidade de Bolsonaro segurar dissidências no PL (especialmente no Nordeste), a disposição do PT em “pagar a fatura” liberando votos para Alcolumbre e a temperatura das ruas.
Se o acordo se sustentar, o Senado terá uma liderança forte, com interlocução direta nos dois polos de poder. Para quem toma decisão de negócio, a mensagem é clara: a volatilidade política continua alta, mas a probabilidade de travamento total da pauta econômica diminuiu. Acompanhe a votação da CCJ e a composição das comissões temáticas — ali é onde a anistia vive ou morre.
