A média do preço da gasolina no segundo mandato de Donald Trump vai quebrar o recorde histórico presidencial justamente na véspera das eleições de meio de mandato. O marco de US$ 3,46 por galão supera a gestão Biden e coloca a inflação no centro do voto. Mas a conta real para o bolso do eleitor vai muito além da média oficial.
Os números que explicam o desgaste
Dados da Administração de Informação de Energia (EIA) mostram que o galão custava US$ 4,269 em 26 de outubro, alta de mais de 33% desde a posse em janeiro do ano passado. No mesmo período, o índice PCE — termômetro de inflação preferido do Fed — saltou de 2,6% para 3,6% ao ano.
O diesel, insumo vital para agronegócio e logística, disparou 70%, atingindo US$ 6,352 na bomba. A média do mandato para o combustível já supera a era Biden: US$ 4,339 contra US$ 4,076.
- Gasolina (média do mandato): US$ 3,46 (recorde histórico)
- Gasolina (preço spot 26/out): US$ 4,269
- Diesel (média do mandato): US$ 4,339
- Diesel (preço spot 26/out): US$ 6,352
- Inflação PCE (set/2025): 3,6% a.a.
Por que a bomba virou o termômetro da eleição
Pesquisa recente do Financial Times aponta que 56% dos eleitores se dizem em situação financeira pior sob a atual administração. Disputas para Câmara e Senado em redutos tradicionalmente republicanos tornaram-se acirradas.
“Se a vida moderna tivesse um preço único, seria o da bomba de combustível”, resume Bob McNally, ex-assessor energético da Casa Branca e presidente da Rapidan Energy. “O eleitor vê o letreiro todos os dias, abasteça ou não.”
O aumento funciona como “um imposto repentino não autorizado pelo Congresso”, compara McNally, evocando os precedentes de Jimmy Carter e George H. W. Bush — presidentes que perderam a reeleição sob pressão de custos energéticos.
A origem do choque: guerra no Estreito de Ormuz
O gatilho foi o conflito com o Irã, iniciado em fevereiro. Teerã bloqueou grande parte do tráfego de petróleo pelo Estreito de Ormuz, enquanto ataques a refinarias no Oriente Médio e investidas ucranianas contra instalações russas estrangularam a oferta global.
Para Jason Bordoff, do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia, a alta decorre de “danos autoinfligidos que esta administração impôs ao país”. A Casa Branca rebate: a ação era necessária para impedir um Irã nuclear e, ajustada pela inflação, a gasolina seria mais cara no governo anterior.
Medidas emergenciais e o acordo controverso com Putin
Trump usou todo o arsenal executivo: suspendeu regras ambientais, flexibilizou a Lei Jones (cabotagem) e pressionou governadores a zerar impostos estaduais. “Foi mais longe do que qualquer outra Casa Branca”, admite McNally, “mas o poder presidencial tem limite.”
O movimento mais polêmico foi a suspensão temporária de sanções para importar diesel russo via acordo com Vladimir Putin. Três petroleiros — um na lista de sanções dos EUA, outro na da UE — devem descarregar 140 mil toneladas nos portos americanos dias após a votação.
Por que o diesel russo não resolve o problema imediato
Analistas são céticos. Rachel Ziemba, do Centro para uma Nova Segurança Americana, alerta: volumes iniciais são pequenos e a Rússia carece de excedente exportável. “Seria necessário cessar-fogo na área de energia e tempo para reconstruir refinarias russas”, diz.
Na sexta-feira, Exxon e Chevron sinalizaram que a crise do diesel é estrutural, ao anunciarem lucros combinados próximos de US$ 25,3 bilhões. A comemoração pública de Trump pelos ganhos do setor — “estamos fazendo uma fortuna do caramba” — gerou reação negativa em bases eleitorais sensíveis ao custo de vida.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão a trajetória dos preços no próximo trimestre: a duração do bloqueio em Ormuz, a capacidade real de entrega do diesel russo prometido e a resposta da OPEP+ a eventuais pedidos de aumento de produção. Para o investidor, o sinal de alerta está na margem de refino do diesel: se persistir elevada, a inflação logística continuará pressionando cadeias de suprimento e balanços corporativos bem além do ciclo eleitoral.
