Economia

Inadimplência explode: 84 milhões no vermelho e o sinal de alerta que ninguém viu

Gráfico mostra 84,2 milhões de brasileiros inadimplentes em setembro, recorde histórico Serasa
Brasil atinge 84,2 milhões de negativados, novo recorde da Serasa em setembro de 2024.

A inadimplência no Brasil atingiu 84,2 milhões de pessoas em setembro, novo recorde da série histórica da Serasa. O avanço de 300 mil nomes em apenas um mês esconde uma pressão silenciosa sobre o caixa das famílias.

O que esse número não mostra de imediato é como ele reconfigura o acesso a crédito, o consumo e até a contratação nos próximos trimestres.

O retrato numérico que assusta

Em agosto, eram 83,9 milhões de consumidores negativados. A alta mensal de 0,4% parece modesta, mas a comparação anual revela o tamanho do problema: crescimento de 6% frente ao mesmo período do ano anterior.

Desde 2020, a curva não para de subir. A pandemia iniciou o ciclo, juros altos alongaram a travessia e a inflação de serviços fez o resto.

  • 84,2 milhões de CPFs com restrição em setembro
  • 300 mil novos nomes em 30 dias
  • 6% de alta na comparação anual
  • 4 anos de recordes sucessivos

O efeito direto no bolso do empresário

Para quem vende a prazo ou financia clientes, o cenário muda a regra do jogo. A cada 100 consumidores que entram na loja, quase 40 carregam restrição ativa.

Isso força duas respostas imediatas: aperto na análise de crédito e elevação do custo de funding para compensar o risco. Quem não ajusta a régua, perde margem.

Mas o impacto mais relevante aparece no varejo de ticket médio alto.

Setores sob pressão: veículos, móveis e eletros

Financiamentos de longo prazo são os primeiros a travar. Bancos e financeiras endurecem score, exigem entrada maior e alongam prazos de aprovação.

O resultado imediato: queda na conversão de vendas parceladas e aumento de devoluções de propostas já encaminhadas.

No varejo de essenciais, o movimento é outro. O consumidor troca marcas, reduz quantidade e prioriza pagamento à vista — o que comprime o faturamento sem necessariamente derrubar o fluxo de caixa.

O que os dados de renda revelam

Faixas de renda até três salários mínimos concentram a maior densidade de novos negativados. São trabalhadores formais e informais que viram o custo de vida subir acima da recomposição salarial.

Acima de cinco salários, a inadimplência cresce em ritmo menor, mas chama atenção o avanço de dívidas com cartão de crédito rotativo e cheque especial — sinais de descontrole de caixa, não de falta de renda.

Cenários para os próximos meses

O último trimestre costuma trazer alívio sazonal: 13º salário, restituição de IR para quem declarou no fim do prazo e campanhas de renegociação (Feirão Serasa, Mutirão dos Bancos).

Historicamente, janeiro registra queda no total de negativados. A dúvida é se o volume de acordos será suficiente para inverter a tendência de alta estrutural.

Três variáveis definem o rumo: taxa Selic, emprego formal e inflação de alimentos. Se duas piorarem juntas, o recorde de setembro será apenas a base do próximo.

O que observar daqui pra frente

Monitore a taxa de renovação de crédito no seu setor. Se a aprovação cair abaixo de 60% das propostas, o gargalo não é mais demanda — é risco.

Acompanhe também o índice de recuperação de carteira vencida acima de 90 dias. Quando ele para de subir, costuma antecipar a virada do ciclo em 60 a 90 dias.

Por fim, mantenha régua de cobrança ativa nos primeiros 15 dias de atraso. É nessa janela que a recuperação custa menos e preserva o relacionamento.