Em Banabuiú, no sertão central do Ceará, a venda de água mineral foi suspensa por tempo indeterminado depois que integrantes do Comando Vermelho passaram a exigir pagamento de taxa sobre cada garrafão comercializado e ameaçaram de morte quem não colaborasse. A distribuição só foi retomada com escolta policial.
O episódio expõe como o controle territorial de facções avança sobre serviços essenciais em municípios de pequeno porte. O que começou como extorsão no comércio local escalou para um risco real de desabastecimento hídrico.
Como a extorsão chegou à água mineral
Segundo relatos de comerciantes à polícia, membros da facção abordaram donos de depósitos e mercados nas últimas semanas. A cobrança variava entre R$ 2 e R$ 5 por garrafão de 20 litros — valor repassado integralmente ao grupo criminoso. Quem se recusou a pagar recebeu ameaças diretas, inclusive com exibição de armas.
Com medo de represálias, ao menos seis estabelecimentos fecharam as portas ou pararam de receber pedidos. A paralisação afetou bairros inteiros, incluindo áreas onde o abastecimento público é intermitente e a água mineral é a única opção potável.
O impacto imediato na população
Banabuiú tem cerca de 18 mil habitantes e enfrenta estiagem prolongada. Nos últimos 12 meses, o volume de chuvas ficou 42% abaixo da média histórica, segundo dados da Funceme. Nesse cenário, a água mineral deixa de ser conveniência e vira necessidade básica.
- Famílias de baixa renda relatam dificuldade para encontrar água a preço acessível
- Escolas e postos de saúde dependiam de entregas regulares de garrafões
- Comerciantes que mantiveram as vendas sob ameaça não divulgaram se pagaram a taxa
A prefeitura confirmou que o abastecimento público opera com racionamento — dois dias com água, três sem — o que ampliou a dependência do comércio particular.
A resposta das forças de segurança
Após denúncias, a Polícia Militar montou operação com apoio da Polícia Civil e do Batalhão de Policiamento de Choque. Na manhã de 1º de novembro, comboios com garrafões saíram de distribuidoras em Quixadá e Quixeramobim sob escolta até os pontos de venda em Banabuiú.
Três suspeitos foram presos em flagrante por extorsão e associação criminosa. Armas, munições e anotações com valores de cobrança foram apreendidas. A polícia não divulgou se há mandados em aberto contra outros integrantes do grupo na região.
O que observar daqui para frente
A retomada das vendas com escolta é uma solução emergencial, não estrutural. O custo logístico da operação policial — viaturas, combustível, efetivo — não é sustentável por longo período. Além disso, a facção pode migrar a cobrança para outros insumos: gás de cozinha, materiais de construção, medicamentos.
O Ministério Público do Ceará instaurou procedimento para acompanhar a segurança no abastecimento. Enquanto isso, a prefeitura negocia com a Cagece a antecipação de obras de ampliação do sistema de captação no açude Araras, única fonte superficial do município. A licitação está prevista para janeiro de 2027.
Para o comerciante ou gestor público que acompanha o caso, o sinal de alerta é claro: quando o crime organizado passa a taxar produtos de primeira necessidade, a fronteira entre segurança pública e sobrevivência cotidiana deixa de existir.
