Uma onda de ataques cibernéticos elevou a temperatura de freezers de supermercados para 55°C em quatro países europeus nesta segunda-feira (2), destruindo estoques avaliados em milhões de euros. A invasão explorou uma vulnerabilidade conhecida — e ignorada — em sistemas de refrigeração conectados à internet sem proteção adequada.
Esta é a segunda investida em larga escala em poucas semanas. O alvo: a cadeia de frio que mantém alimentos seguros do campo à prateleira.
O golpe no modo descongelamento
Os criminosos não invadiram caixas ou bancos de dados. Eles assumiram o controle do ciclo de descongelamento dos equipamentos — função que aquece as serpentinas periodicamente para evitar acúmulo de gelo. Ao forçar esse modo de forma contínua, transformaram freezers em fornos.
Relatos de gerentes na Suécia descrevem ar quente sendo soprado para dentro dos compartimentos. “Não conseguimos ajustar as temperaturas. Tudo está perdido”, disse um responsável de loja da rede Ica ao jornal Aftonbladet.
Quatro países, dezenas de redes, centenas de lojas
O mapa do ataque revela coordenação:
- Suécia: Redes Ica e Coop — equipamentos chegaram a 55°C
- Bélgica: Delhaize (40 lojas), Carrefour (15), Intermarché (10), Spar (5), Ikea
- Irlanda: 13 lojas da Supervalu (grupo Musgrave)
- Finlândia: K-stores
- Estônia: Selver
Na França, ataque anterior no mês passado atingiu centenas de supermercados, causando incêndios e perdas massivas. A unidade de crimes cibernéticos do Ministério Público de Paris e a agência nacional Anssi investigam.
O elo comum: equipamentos Danfoss expostos
Os sistemas comprometidos foram fabricados pelo grupo dinamarquês Danfoss. A empresa confirmou que seus controles de temperatura foram alvo pela segunda vez e reiterou avisos anteriores: desconectar equipamentos de IPs públicos, atualizar firmware e adotar “proteção de rede adequada”.
Stephan Moelans, CEO da Sabcobel (distribuidora belga da Danfoss), afirmou que os hackers exploraram conexões inseguras à internet. “Atacaram supermercados que não tinham uma conexão segura”, disse.
O Carrefour na Bélgica escapou do pior: apenas um pequeno número de lojas foi afetado graças a medidas adotadas após o episódio francês — atualizações e túneis seguros de comunicação.
IA generativa baixou a barreira de entrada
Robert Lee, CEO da Dragos e referência em segurança de tecnologia operacional (OT), aponta uma mudança estrutural. Grandes modelos de linguagem agora fornecem conhecimento técnico e scripts que antes exigiriam anos de especialização.
“O alcance e a escala desses ataques são algo novo”, afirmou Lee. “Nunca tivemos centenas de supermercados ao mesmo tempo. Nunca tivemos mais de cem empresas de abastecimento de água simultaneamente” — referência a ataque iraniano a infraestrutura hídrica nos EUA no início do ano.
Incidente nacional na Bélgica
O Centro de Cibersegurança da Bélgica (CCB) elevou o caso à categoria de incidente nacional. Isso aciona compartilhamento de inteligência entre serviços de segurança e agências de defesa. Ainda não há autoria confirmada.
Christophe Hansen, comissário europeu para Agricultura e Alimentação, classificou a ação como “tentativa deliberada de interromper nossa cadeia de abastecimento de alimentos”, mas ressaltou que a segurança alimentar do continente não está ameaçada.
O que observar daqui para frente
Três vetores merecem atenção imediata de varejistas, investidores e gestores de risco:
- Inventário de ativos OT: Mapear todo equipamento conectado — compressores, controladores, sensores — e isolá-los da internet pública
- Gestão de patches: Atrasos em atualizações de firmware em equipamentos industriais são a porta de entrada mais comum
- Segmentação de rede: Redes de automação devem operar em VLANs dedicadas, com acesso remoto apenas via VPNs auditadas e MFA
O custo da inação acaba de ser precificado: milhões em perdas diretas, danos reputacionais e a evidência de que a infraestrutura crítica de alimentos pode ser derrubada sem disparar um único alarme de incêndio.
