A Apple projeta receita de fim de ano acima do consenso de Wall Street, mas admite que a margem bruta vai cair para 45% a 46% no quarto trimestre — bem abaixo dos 47% esperados pelos analistas. O motivo tem nome e sobrenome: alta “sem precedentes” no preço dos chips de memória e a conta cara de rodar a nova Siri com inteligência artificial.
As ações caíram cerca de 3% no after-market desta segunda-feira (2), logo após a divulgação do balanço do terceiro trimestre fiscal. O mercado comprou a promessa de vendas fortes, mas vendeu o aviso de que o lucro por aparelho vai encolher.
O que os números mostram agora
No trimestre encerrado em setembro, a receita totalizou US$ 114,5 bilhões, alta de 17,5% ano a ano e acima das projeções. O lucro líquido chegou a US$ 30,7 bilhões. A margem bruta real ficou em 47,9%, dentro da faixa guiada pela própria empresa (47% a 48%).
Os destaques por segmento:
- iPhone: receita não detalhada, mas a Apple ganhou market share global — saltou de 18% para 22% num mercado que encolheu 20% (Counterpoint Research).
- Mac: US$ 10,8 bilhões, cerca de US$ 1 bilhão acima do esperado.
- Serviços (App Store, iCloud, Apple Pay): US$ 31,6 bilhões.
- China: US$ 17,5 bilhões (+20%), porém abaixo dos US$ 18,9 bilhões estimados; a empresa culpa restrições de cadeia de suprimentos que limitaram entregas.
O aviso que assustou o after-market
Para o quarter do Natal, a Apple guia receita com crescimento de 7% a 10% — Wall Street esperava 6%. Parece bom. O problema está na margem: 45% a 46%, contra 47% do consenso.
John Ternus, CEO desde setembro, foi direto: “O que estamos vendo nos preços da memória neste momento é sem precedentes”. A corrida por data centers para IA sugou a oferta de chips de memória, e a Apple não tem como escapar. Diferente de Google, Amazon e Microsoft, ela não construiu uma frota própria de data centers massiva — o que a torna, paradoxalmente, um “refúgio” para quem teme capex desenfreado em IA, mas não a imuniza da conta dos componentes.
O fator iPhone Duo e a estratégia de preços
Este é o primeiro balanço sob Ternus e o primeiro a refletir integralmente a alta de preços aplicada em junho a toda a linha. Os iPhone 18 Pro e Pro Max subiram cerca de US$ 100; o modelo básico foi adiado para 2027, o que dificulta comparações anuais.
O lançamento do iPhone Duo dobrável foi conturbado: atrasos longos e relatos de rachaduras na tela. A Apple diz que o problema afetou “número limitado de aparelhos”. O CFO Kevan Parekh admitiu ser “difícil” medir quanto das vendas do trimestre veio de consumidores antecipando compras antes dos reajustes.
Cenário: refúgio relativo, mas não blindado
Enquanto as big techs vizinhas decepcionaram na semana passada e derrubaram o setor, a Apple segurou alta modesta no mês anterior ao balanço, mantendo valuation próximo de US$ 5 trilhões — disputando com a Nvidia o topo do ranking mundial.
A vantagem estrutural: capex contido em infraestrutura própria de IA. O risco estrutural: dependência de poucos fornecedores de memória num mercado aquecido pela mesma IA que a Apple tenta evitar construir em escala.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se a ação recupera ou aprofunda a queda: (1) a trajetória do preço spot de DRAM e NAND nos próximos 90 dias; (2) a aceitação do iPhone Duo após os ajustes de tela; (3) a capacidade da cadeia na China de voltar a fluir sem gargalos logísticos. O guidance de margem já embute pessimismo prudente — qualquer alívio no custo dos chips vira upside direto no resultado do Natal.
