Justiça

STF amplia debate sobre bets: Saúde, Justiça e varejo entram na audiência decisiva de terça

Ministro Luiz Fux no STF durante audiência sobre regulação de bets no Brasil
STF realiza audiência decisiva sobre proibição de bets com participação de Saúde, Justiça e varejo

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, atendeu a um pedido da Advocacia-Geral da União e incluiu os ministérios da Saúde e da Justiça, além da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), na audiência pública que vai discutir a proibição das bets no Brasil. A sessão acontece nesta terça-feira (3), a partir das 10h, em Brasília, com transmissão ao vivo pelos canais do STF.

A decisão reconfigura o equilíbrio de forças no plenário virtual. Até domingo, a lista de 26 convidados pendia fortemente para o lado de clubes de futebol e operadoras de apostas — 17 no total. A AGU argumentou que essa composição dificultaria a “vocalização equilibrada” de dados técnicos e opiniões contrárias à liberação dos jogos.

O que motivou a mudança de última hora

No requerimento enviado ao relator, a AGU apontou que o grupo original formava um “quadro predominantemente integrado por entidades esportivas e representantes de operadoras”. Fux acolheu a ponderação e destacou que, em novembro de 2024, já conduziu duas audiências nas quais entidades de psiquiatria, defesa do consumidor e direitos de idosos expuseram os “malefícios sociais das apostas”.

Nenhuma dessas organizações — como a Associação Brasileira de Psiquiatria, o IDEC ou o Instituto Alana — foi convocada para o evento desta terça. O ministro registrou que esses impactos na saúde e na economia “já são de conhecimento desta Corte” e embasaram votos seus em julgamentos anteriores.

Como fica a composição final da audiência

Com as novas adesões, sobe para 34 o número de entidades, órgãos e associações com direito a fala. A programação divide-se em dois blocos: pela manhã, clubes e federações esportivas; à tarde, órgãos de governo, entidades de classe e representantes do setor de apostas.

  • Manhã (10h–12h): 12 clubes de futebol, Fenapaf, CBF, COB e Comitê Paralímpico
  • Tarde (14h–17h30): AGU, PGR, Ministérios da Fazenda, Esporte, Justiça e Saúde, CNC, Abras, Anseja, ANJL, IBJR, ANPV, Abracopel, Abert, Abracrim, CNI, UERJ Reg, Able e Aigaming

Cada participante terá 10 minutos para se manifestar. A Abras, por exemplo, falará às 15h10 — logo após a Confederação Nacional do Comércio.

O que está em jogo para o mercado e a sociedade

A Medida Provisória 1.394/2026 proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas online em todo o território nacional. A ANJL, autora da ADI 8027, sustenta que a medida é inconstitucional e pede a suspensão imediata dos efeitos da MP.

Do outro lado, o governo federal defende a proibição com base em estudos sobre endividamento das famílias, lavagem de dinheiro e impactos na saúde mental. A inclusão do Ministério da Saúde e da Justiça sinaliza que o Executivo pretende reforçar o viés técnico e sanitário do debate — não apenas o econômico.

Dados recentes da própria Abras indicam que o consumo de alimentos cresceu após a proibição das bets, sugerindo que parte da renda antes destinada a apostas voltou para o varejo essencial. Esse dado deve ser levado à tribuna pela entidade.

Por que a audiência pode ditar o rumo da decisão

Fux é o relator da ação e costuma dar peso às audiências públicas na formação de seu convencimento. A presença de 34 vozes diferentes — com tempo igual para cada uma — cria um acervo fático que o ministro poderá citar em seu voto, seja para conceder a liminar pedida pela ANJL, seja para manter a MP em vigor.

O calendário aperta: a MP perde validade se não for convertida em lei em até 120 dias. A audiência desta terça é, na prática, a última grande etapa de coleta de subsídios antes de uma decisão monocrática ou de levar o caso ao plenário.

O que observar nas próximas horas

Fique atento à fala dos ministérios da Saúde e da Justiça — elas devem trazer números atualizados sobre atendimentos por transtorno do jogo patológico e investigações de crimes financeiros ligados a plataformas de apostas. A posição da Abras também merece destaque: o varejo é um termômetro real do bolso do consumidor.

Se a maioria dos participantes técnicos endossar a proibição, a tendência é que Fux negue a liminar e a MP siga válida. Caso o viés econômico e esportivo prevaleça, a pressão para suspender a medida aumenta. A transmissão ao vivo permite acompanhar cada argumento em tempo real — um raro exercício de transparência em uma disputa que move bilhões de reais.