O Supremo Tribunal Federal realiza na terça-feira uma audiência pública que pode definir o futuro das apostas online no Brasil. A lista de convidados, porém, expõe um desequilíbrio gritante: das 28 entidades chamadas a depor, nenhuma representa a saúde pública, a defesa do consumidor ou a proteção à infância. Quem perde com o vício em apostas não tem assento à mesa.
Essa ausência não é um detalhe burocrático. Ela define quais dados serão considerados na decisão sobre a medida provisória que proibiu as bets. E os números que ficam de fora são assustadores.
O que a pesquisa revelou sobre o bolso das famílias
O estudo Mulheres & Bets, conduzido pelo Instituto CLARICE com mais de 2 mil entrevistas em todo o país, trouxe à tona o que os balanços financeiros não mostram. Quatro em cada dez brasileiras já apostaram. A maioria não buscava enriquecimento: jogava para pagar a conta de luz, o material escolar ou a festa do filho.
Quando o dinheiro acabava, a falta era sentida dentro de casa. “Às vezes não tem um grão de comida dentro de casa porque a pessoa jogou”, relatou uma entrevistada de 24 anos na Bahia. O impacto transborda para quem não aposta: entre mulheres que convivem com apostadores, 14% deixaram de pagar contas, 25% relatam brigas e perda de confiança, e 23% dos brasileiros conhecem casos em que a aposta alimentou violência doméstica.
O silêncio também tem causa: 65% das que quiseram ajuda para parar não a buscaram por vergonha.
A virada da opinião pública em números
Os dados da pesquisa ecoaram nas ruas. Em julho, 62% das mulheres já apoiavam a proibição total — contra 50% dos homens. Em outubro, com a medida provisória em vigor, o Datafolha registrou 78% de apoio à proibição em todo o país, um salto de 13 pontos percentuais em relação a novembro de 2024.
O debate saiu das páginas de economia e entrou na mesa de jantar. Virou questão de família, saúde mental e proteção de crianças.
O outro lado da conta: receita versus custo real
O argumento econômico dos clubes e operadoras é conhecido. Em 2025, os times da Série A receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios das bets, o equivalente a 7% de suas receitas. No mesmo período, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O futebol ficou com menos de 3% do que as famílias deixaram lá.
A arrecadação tributária também é citada como benefício. Entre fevereiro e setembro de 2025, o setor recolheu R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais. Mas quanto volta para tratar o problema?
- Lei destina 1% da parcela de políticas públicas ao Ministério da Saúde
- Até agosto, chegaram à Saúde apenas R$ 33 milhões
- Instituto IEPS estima custos anuais de saúde em pelo menos R$ 30,6 bilhões
A conta fecha no vermelho. O SUS e as famílias pagam a diferença.
Pressão por equilíbrio na audiência
A própria Advocacia-Geral da União reconheceu o desequilíbrio e pediu a inclusão de entidades como Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove organizações da sociedade civil, incluindo a CLARICE, escreveram ao ministro Luiz Fux solicitando representação equânime. Até agora, a lista foi ampliada apenas uma vez — para adicionar o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte.
Uma audiência pública serve para instruir uma decisão. Quando ela escuta só quem perde receita com a proibição, a pergunta fica no ar: a serviço de quem ela está?
O que observar daqui para frente
A medida provisória segue agora para o Congresso Nacional, onde o debate deve ocorrer com tempo, dados e todas as vozes. Enquanto isso, a proibição precisa ser mantida. Suspendê-la antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois — o inverso do devido processo.
Nas entrevistas, as mulheres já mostraram o que fazem: confrontam, negociam dívidas, tomam celulares, buscam apoio na igreja, vigiam os filhos. Elas sabem o que querem. A terça-feira dirá se as instituições estão dispostas a ouvi-las. O Brasil ganha quando escuta todos os lados. Perde muito quando escuta só um.
