Três estudantes do ensino médio desenvolveram um sistema que usa robótica e inteligência artificial para mudar como a sala de aula lida com dúvidas — e o projeto já venceu uma competição estadual com 121 inscritos. A solução não entrega respostas prontas; ela força o raciocínio. O impacto vai além da escola: prova que inovação de baixo custo pode nascer longe dos grandes centros.
O “Mentor Maker” nasceu no Sesi de Votorantim, interior de São Paulo, pelas mãos de Felipe Augusto Gomes, Pedro Henrique Detonhe e Samuel Pires, com orientação do professor Marcelo Dias. A ferramenta ficou em segundo lugar no Sesi Makerthon 2026. Mas o prêmio é só o começo.
Como funciona: painel, fila inteligente e um robô chamado LEIA
O coração do sistema é um painel eletrônico onde cada aluno sinaliza o nível de dificuldade em tempo real. O software processa esses dados, cria uma fila de prioridade — quem precisa de mais ajuda sobe ao topo — e entrega ao professor um mapa visual da turma. Isso permite intervenções cirúrgicas, não genéricas.
A novidade é a integração com a LEIA, robô humanoide que conversa, ouve dúvidas e devolve orientações geradas por IA. A diferença: a máquina não resolve o exercício. Ela sugere caminhos, mostra circuitos, exibe imagens relacionadas. O aluno continua sendo o protagonista da descoberta.
- Painel de dificuldade: entrada de dados simples, baixo custo, replicável.
- Fila dinâmica: professor otimiza tempo, atende quem mais precisa.
- Robô LEIA: interface amigável, estimula questionamento, não copia-cola.
O medo da substituição — e por que ele não se sustenta
Quando surge IA na educação, a pergunta imediata é: “vai substituir o professor?”. O orientador Marcelo Dias é direto: nunca foi essa a intenção. O socioemocional, o projeto de vida, a mediação de conflitos — nada disso cabe em algoritmo. O “Mentor Maker” cobre a lacuna operacional: aquelas horas em que 30 alunos travam ao mesmo tempo e um só professor não consegue chegar a todos.
Essa clareza de propósito é rara. Muitas edtechs prometem revolução e entregam automação rasa. Aqui, a tecnologia é coadjuvante por design.
Inovação que não depende de orçamento milionário
O maior trunfo do projeto talvez seja a arquitetura aberta. O sistema roda sem a LEIA. Escolas que não compram robô humanoide podem construir apenas o painel — custo baixo, componentes acessíveis, lógica replicável. O professor Dias confirma: a ideia é que novos alunos assumam o projeto a cada ano, melhorando a solução e levando-a a feiras de iniciação científica.
Isso transforma um trabalho de conclusão de curso em programa de melhoria contínua. Modelo que startups maduras demoram anos para estruturar.
O que observar daqui para frente
Três vetores merecem atenção de gestores educacionais, investidores em edtech e formuladores de política pública:
- Escalabilidade real: a versão “sem robô” testa se o valor está no software e na metodologia, não no hardware caro.
- Formação de talentos: alunos que saem do ensino médio com produto validado em competição estadual entram na universidade — ou no mercado — com portfólio concreto.
- Mudança cultural: se a IA for adotada como “tutor socrático” e não “oráculo de respostas”, o hábito de copiar-colar perde força. Isso muda a pipeline de profissionais futuros.
O “Mentor Maker” não vai resolver sozinho os gargalos da educação brasileira. Mas demonstra que, com orientação certa, estudantes de 17 anos entregam solução que grande empresa levaria trimestres para prototipar. A lição para o mercado: o próximo unicórnio de edtech pode estar sentando na carteira ao lado — e não sabe que é unicórnio.
