Economia

O segredo que o mercado esconde: IA pode derrubar o crescimento dos EUA?

Gráfico mostra rendimentos dos Treasuries de 10 anos caindo para 2,58% enquanto investidores vendem ações de big techs
Rendimentos reais dos títulos do Tesouro de 10 anos caem ao menor nível desde setembro, sinalizando fuga para segurança.

Investidores estão fugindo das ações e correndo para títulos do Tesouro americano, mesmo com a economia crescendo 3,4% no terceiro trimestre — acima das projeções. O motivo? O balanço das big techs revelou uma conta que não fecha.

A reviravolta aconteceu em dias. Rendimentos reais de 10 anos caíram para 2,58%, menor nível desde setembro. Mas o que assusta não é o número isolado: é a velocidade da mudança de rota.

O balanço que assustou Wall Street

Na quinta-feira (29), a Alphabet despencou 13% após confessar fluxo de caixa livre negativo pela segunda vez desde o IPO de 2004. Meta, Amazon e Intel também elevaram investimentos em capital a patamares recordes enquanto a receita dá sinais de arrefecimento.

O Nasdaq 100 acumula queda de 2% na semana e entrou em território de correção. A saída das Bolsas é menor que no verão do Hemisfério Norte, mas a entrada em títulos sugere algo mais estrutural: gestores protegendo carteiras contra concentração excessiva em IA.

Por que o crescimento forte não tranquiliza

“Não há indícios de desaceleração nos dados econômicos. Mas os mercados olham para o futuro”, resume Priya Misra, da JPMorgan Asset Management. A leitura consensual: uma reavaliação da IA força reavaliação do crescimento.

O PIB de 3,4% no terceiro trimestre superou os 3,2% esperados. Porém, a composição desse número preocupa economistas há meses.

  • Dependência tecnológica: gastos com IA sustentam fatia desproporcional da expansão
  • Efeito global: não é fenômeno apenas americano, alerta Vincent Reinhart (BNY Investments)
  • Comparação difícil: bases de comparação anuais tornam crescimento futuro matematicamente mais duro

O risco de superaquecimento silencioso

Robert Sockin, da PGIM, batizou o cenário de “história das caudas mais grossas”. A probabilidade de recessão, estimada em 10% no início do ano, subiu para 20% há um mês. Após as últimas semanas, ele admite: “talvez seja 25%”.

O Fed manteve juros entre 3,75% e 4% na quarta-feira. Kevin Warsh tentou acalmar: as fontes da força econômica não estão “concentradas apenas em nichos restritos”. Mas a narrativa, admite ele, ficou “muito mais difícil de sustentar”.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditarão o próximo capítulo: fluxo de caixa livre das megacaps nos próximos balanços, trajetória do Capex versus receita, e se o rendimento real de 10 anos sustenta o patamar abaixo de 2,6%. Se a conta da IA não fechar no curto prazo, a rota de fuga para títulos tende a se ampliar — e o custo de capital para toda a economia sobe junto.