O presidente Luiz Inácio Lula da Silva atravessa a semana mais tensa do terceiro mandato: dividido entre a revolta contra o que chama de “chantagem do mercado” e o temor real de repetir o colapso de 2015. A pressão por um ajuste fiscal mais duro bate de frente com a recusa em tocar benefícios sociais — e o cenário macroeconômico piora a cada boletim.
Dados do Datafolha mostram o tamanho do risco: em março de 2015, apenas 13% aprovavam Dilma Rousseff; 62% a rejeitavam. O PIB já encolhia no segundo trimestre de 2014 e o emprego começou a cair no trimestre seguinte. Lula cita esses números em conversas reservadas. Diz que não será refém. Diz que não haverá “estelionato eleitoral”. Mas o mercado não acredita em promessas.
O que o presidente ouve — e o que ignora
Nas reuniões recentes, Lula rejeitou propostas consideradas “básicas” por defensores do ajuste: conter o crescimento (não cortar) de reajustes do salário mínimo e de benefícios sociais. “Não vou trair o povo pobre”, repete. Em contrapartida, pediu estudos para medidas “transformadoras” que diferenciem um eventual Lula 4 do atual governo.
A porta-voz dessa visão dentro do Planalto é Bruno Moretti, ministro do Planejamento desde abril de 2026. Desenvolvimentista de carreira petista desde 2009, ele ganhou ouvido do presidente em detrimento de vozes mais ortodoxas. O resultado prático, por ora, é estreito:
- Cumprimento estrito da meta de superávit do arcabouço fiscal
- Mais liberdade para bloquear rubricas hoje blindadas por lei
- Aumento de receita via redução de isenções fiscais
Nem a Previdência militar nem os “penduricalhos” entram na mesa. O risco político, na avaliação do Planalto, supera o ganho fiscal.
Sucessão na Fazenda: nomes, vetos e a disputa real
Rafael Fonteles e Geraldo Alckmin circulam como balões de ensaio para o Ministério da Fazenda. Mas três variáveis tornam o nome menos relevante que o mandato:
- Lula não sinalizou decisão
- O poder do ministro dependerá da autonomia real para mudar a rota
- A briga por Fazenda, Casa Civil e Segurança Pública já é a pré-campanha de 2026
Enquanto isso, economistas liberais e banqueiros ligam para ministros atuais fazendo lobby pelo ajuste. Do outro lado, Guido Mantega e nomes da esquerda petista defendem ação direta para derrubar juros — via expansão, não contração.
O termômetro do mercado já virou
As expectativas de inflação para 2027 subiram, puxadas pelo dólar. O crescimento projetado do PIB despencou para a faixa de 0,5% a 1,3% — contra média de 3% entre 2023 e 2025 (e 1,8% estimado para 2026). Juros longos, definidos no mercado, superaram o pânico de janeiro de 2025.
A decisão do Copom na quarta-feira (4) é incerta. Um dólar a R$ 6 ou IPCA a 6% podem forçar a mão do Banco Central — e, quem sabe, mexer com o “ânimo luliano”, como define um interlocutor próximo.
O que observar daqui para frente
O Congresso para um eventual quarto mandato já se desenha mais hostil que o atual. A combinação de atividade fraca, inflação pressionada e resistência presidencial ao ajuste cria uma janela estreita: ou o governo entrega resultado fiscal crível nas próximas semanas, ou o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros continuará subindo — antecipando, na prática, o cenário que Lula mais teme.
Para o investidor e o empresário, a métrica a monitorar não é o discurso. É a execução orçamentária de novembro e dezembro. Se o bloqueio de rubricas protegidas não vier no volume prometido, a curva de juros precificará, de forma irreversível, a perda de ancoragem fiscal.
