A Polícia Militar orientou motoristas de aplicativo em Bauru a priorizar a própria segurança acima da corrida: ao identificar sinais de perigo antes do embarque, a recomendação é cancelar a viagem. O recado direto partiu do capitão Pires, comandante da Força Tática do 4º BPMI, durante encontro na Câmara Municipal que reuniu dezenas de profissionais — majoritariamente mulheres — preocupadas com a escalada de violência na categoria.
O encontro ganhou urgência após o assassinato da motorista Pâmela Letícia Nolastro Cunha, cujo corpo foi encontrado em área rural de Piratininga no início de novembro. O caso expôs uma rotina de vulnerabilidade que muitas condutoras já conheciam, mas que faltava espaço institucional para ser debatida com as forças de segurança.
O passageiro não é quem aparece no app
Relatos sucessivos durante a reunião desenharam um padrão recorrente: chamadas solicitadas por perfis femininos que, no ponto de embarque, revelavam um ou mais homens. Outras situações envolviam endereços ermos, pouca iluminação ou pedidos para aguardar enquanto o passageiro buscava entorpecentes.
Uma motorista iniciante contou ter abortado uma corrida ao avistar dois homens saindo de área de mata próximo ao local de embarque, já no início da noite. A decisão, segundo o capitão Pires, foi exemplar: “É melhor perder a corrida do que passar por uma situação de risco”. A frase resume a diretriz central — a intuição da condutora deve prevalecer sobre a pressão da plataforma para aceitar chamadas.
Botão de pânico: a falha que ninguém comenta
O debate esquentou quando as motoristas questionaram a eficácia dos “botões de pânico” integrados aos aplicativos. A resposta do comandante foi taxativa: esses recursos não possuem conexão direta com o COPOM de Bauru. Em uma abordagem criminosa, o celular costuma ser o primeiro objeto subtraído — o que torna a ferramenta inoperante justamente no momento crítico.
- Panic buttons dos apps não acionam a PM diretamente
- Celular costuma ser retirado da vítima nos primeiros segundos
- Integração com forças policiais ainda não existe
O presidente da Câmara, Markinho Souza (MDB), classificou a lacuna como “um grande trabalho, mas não impossível” e defendeu tratativas com as plataformas e a Secretaria de Segurança Pública do Estado para criar um canal unificado de emergência.
Não reaja: o patrimônio se recupera, a vida não
O consenso entre policiais e especialistas foi unânime: diante de ameaça armada com objetivo patrimonial (roubo do veículo, celular, dinheiro), a orientação é não reagir. Uma participante com oito anos de profissão relatou ter sido colocada no porta-malas do próprio carro durante assalto — sobreviveu porque conhecia o mecanismo de abertura interna do compartimento.
Esse detalhe técnico virou recomendação prática: toda motorista deve saber como funciona a abertura interna do porta-malas do seu veículo, pois os sistemas variam entre modelos. O capitão Pires foi enfático: “A segurança do motorista não pode depender da capacidade de reação de cada um”.
Defesa pessoal e spray: ferramentas de fuga, não de confronto
Elisa Rocha Caminaga, faixa-preta de judô e fundadora da Associação de Artes Marciais Caminaga, reforçou que treinamento em defesa pessoal serve para criar janela de escape, não para neutralizar agressores. A diferença de força física permanece real e nenhum curso garante vitória em confronto.
Sobre o spray de defesa pessoal — liberado para mulheres maiores de 18 anos desde julho pela Lei Federal 15.474/2026 —, as ressalvas foram técnicas: dentro do carro, o aerossol pode atingir a própria condutora; vento e distância reduzem a eficácia. A posse do equipamento, se houver, deve vir acompanhada de conhecimento sobre suas limitações.
O que observar daqui para frente
O desdobramento prático dependerá de três frentes: pressão legislativa para que apps integrem seus botões de emergência ao 190; capacitação contínua das motoristas em percepção situacional (evitar fones de ouvido, checar entorno antes de parar); e disseminação do protocolo “cancelar ao perceber risco” como conduta padrão, não exceção. Enquanto a integração tecnológica não avança, a decisão de não embarcar segue sendo a ferramenta mais imediata — e eficaz — à disposição de quem trabalha ao volante.
