O Cruzeiro escreveu um dos capítulos mais improváveis do futebol sul-americano ao vencer o Corinthians nos pênaltis após empate por 4 a 4, conquistando a Libertadores Feminina na sua estreia no torneio. A virada aconteceu depois de o time mineiro estar perdendo por três gols de diferença, algo inédito em finais únicas da competição — masculina ou feminina.
O jogo aconteceu em Quito, a 2.850 metros de altitude, com gramados desgastados e atletas vindas de seis partidas em apenas 16 dias. O cenário expõe, mais uma vez, o abismo entre as condições oferecidas às mulheres e o padrão dos torneios masculinos organizados pela Conmebol.
Como tudo aconteceu em 90 minutos caóticos
O Corinthians abriu 3 a 0 antes dos 10 minutos do segundo tempo, com dois gols de Gabi Zanotti. O quarto título consecutivo das Brabas parecia garantido. O que se viu depois foge ao roteiro padrão: o Cruzeiro marcou três vezes em 20 minutos, sofreu o quarto gol e buscou o empate aos 45 do segundo tempo.
Na disputa de pênaltis, a goleira Camila Rodrigues defendeu a cobrança de Gi Fernandes após Robledo converter um golaço nas alternadas. Foi o ponto final de uma campanha que teve a artilheira Byanca Brasil e a vice-artilheira Vic Albuquerque convertendo suas cobranças, mas também viu Pri Back e Jaque isolarem para o lado mineiro.
Os números que mostram a desigualdade estrutural
A coluna original destaca disparidades que vão além do placar. Veja os principais contrastes entre o torneio feminino e o masculino:
- Premiação: US$ 2 milhões ao campeão feminino contra US$ 25 milhões no masculino
- Duração: Duas semanas de torneio contra meses de disputa na versão masculina
- Preparação para a final: Três dias de intervalo contra seis semanas no masculino
- Local: Estádios vazios em país neutro contra jogos de ida e volta com torcida
- Calendário anual: Concentrado em 16 dias contra temporada completa
O impacto direto para clubes e investidores
Para dirigentes e patrocinadores, a final em Quito funciona como prova de conceito: o produto entrega espetáculo mesmo com recursos mínimos. O Cruzeiro, que montou seu time feminino profissional apenas em 2019, superou uma dinastia de sete títulos corintianos em cinco anos de projeto.
Isso sinaliza que o retorno sobre investimento no futebol feminino pode ser mais rápido do que se imagina, desde que haja estrutura mínima. A visibilidade gerada por uma final de oito gols e virada histórica atrai marcas que buscam associar-se a narrativas de superação — algo cada vez mais raro no futebol masculino de elite.
O que a Conmebol pode fazer a partir de 2025
A entidade presidida por Alejandro Domínguez tem caixa para mudar o cenário. A receita da Libertadores masculina 2024 superou US$ 1 bilhão. Redirecionar 2% desse valor dobraria a premiação feminina e permitiria expandir o torneio para formato de ida e volta, com melhores gramados, logística humanizada e calendário espaçado.
Outro ponto crítico: a Copa do Mundo Feminina de 2027 será no Brasil. A Conmebol tem menos de três anos para transformar a Libertadores no principal celeiro de talentos da região. Manter o formato atual é desperdiçar a valorização natural que o Mundial trará para o continente.
O que observar nos próximos meses
Fique atento à definição do calendário 2025: a Conmebol costuma anunciar mudanças em dezembro. A ampliação de vagas por federação, a introdução de fase de grupos e o aumento da premiação são os três indicadores que mostrarão se a entidade entendeu o recado de Quito. Clubes que anteciparem estruturação de departamentos femininos profissionais sairão na frente na captação de talentos e patrocínios.
