Economia

O segredo por trás de 3,5 toneladas que alimentam 300 escolas toda semana

Agricultores do Assentamento Ipanema colhendo alimentos orgânicos para merenda escolar de 300 escolas via PNAE
105 famílias do Assentamento Ipanema fornecem 3,5 toneladas de alimentos semanais para merenda de 300 escolas.

Um assentamento no interior de São Paulo move 3,5 toneladas de alimentos por semana direto para a merenda de mais de 300 escolas. O modelo combina cooperativismo e política pública — e está mudando a economia de cinco municípios ao mesmo tempo.

No Assentamento Ipanema, em Iperó, 105 famílias transformaram a terra em renda recorrente. A engrenagem gira há décadas, mas ganhou escala quando a cooperativa local fechou parceria com o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Como a logística funciona na prática

Toda a comercialização passa pela cooperativa. Ela organiza a colheita, padroniza os lotes e garante a entrega nos prazos exigidos pelo programa federal. Não há intermediários: o produtor recebe o valor combinado, a escola recebe o alimento fresco.

Edinei Ramos Venâncio, um dos agricultores, mantém cerca de 2 mil pés de banana em produção. Fora da safra da fruta, ele rota cultivos de verduras e legumes para não parar de entregar. “A regularidade é o que mantém o contrato vivo”, resume.

O volume semanal — 3,5 toneladas — abastece escolas em Iperó e outras quatro cidades da região. São frutas, folhosas, tubérculos e legumes colhidos às vésperas da distribuição.

O que o PNAE muda para o pequeno produtor

O programa federal garante compra prioritária da agricultura familiar. Para o assentado, isso significa preço definido antecipadamente, pagamento em dia e demanda constante — três variáveis que o mercado convencional raramente oferece juntas.

Segundo Ernesto Ramos Venâncio Júnior, presidente da cooperativa, a adesão ao PNAE elevou a renda média das famílias em dois dígitos nos últimos ciclos. O recurso extra permite investir em irrigação, sementes certificadas e até em veículos próprios de transporte.

  • Garantia de escoamento: toda a produção tem destino certo antes mesmo da colheita.
  • Preço estável: tabelas do programa evitam a volatilidade das centrais de abastecimento.
  • Capital de giro: pagamentos em até 30 dias financiam a safra seguinte sem endividamento.

Da ocupação à referência regional

A história começou em 1992, quando cerca de 700 famílias foram assentadas na área. O número caiu para 105 ao longo dos anos — quem ficou, profissionalizou. Hoje, o Ipanema é citado em encontros técnicos como caso de sucesso em gestão coletiva.

A cooperativa nasceu da necessidade de negociar em bloco. Individualmente, nenhum assentado conseguiria atender o volume mínimo exigido pelo PNAE. Juntos, eles viraram fornecedores estratégicos para a rede pública de ensino.

Mas o efeito mais relevante aparece fora da porteira.

O impacto que vai além da renda familiar

Escolas da região relatam queda no desperdício de merenda. Alimentos colhidos na véspera duram mais na cozinha e agradam mais o paladar dos alunos. Nutricionistas municipais ganharam flexibilidade para montar cardápios sazonais — algo impossível com fornecedores distantes.

Para as prefeituras, a conta fecha: o repasse federal do PNAE cobre a compra, a logística é mais curta e a qualidade nutricional sobe. É um raro alinhamento entre interesse do produtor, do gestor público e do consumidor final.

O que observar nos próximos ciclos

O modelo tende a se expandir se dois gargalos forem resolvidos: armazenagem a frio no próprio assentamento e certificação orgânica coletiva. A primeira reduziria perdas em semanas de chuva; a segunda abriria mercados institucionais que pagam prêmio por selo verde.

Outro ponto de atenção é a sucessão. A média de idade dos atuais cooperados passa de 55 anos. Programas de capacitação para filhos e netos já estão em discussão com o Incra e a prefeitura — sem renovação, a engrenagem trava em uma geração.

Enquanto isso, as 3,5 toneladas semanais seguem saindo de Iperó. É comida real, renda real e um caso de política pública que funcionou — raro o suficiente para merecer atenção de quem investe no campo.