Economia

O segredo dos 91 mil apartamentos lançados em SP: por que investidores compram estúdios de 19 m²

Canteiros de obra em bairros nobres de São Paulo com guindastes e prédios compactos em construção
Boom imobiliário em SP: 95,3% dos 91 mil lançamentos são estúdios compactos para investimento

Nos primeiros oito meses de 2026, São Paulo ganhou 91.361 novas unidades residenciais — alta de 19,8% sobre o mesmo período do ano passado. Mas o dado que ninguém comenta é este: 95,3% desses lançamentos são apartamentos compactos, e a maioria já tem dono antes da entrega das chaves.

Quem está comprando não quer morar. Quer alugar por temporada.

O perfil que domina os bairros nobres

Jardim Paulista, Itaim Bibi, Pinheiros. Caminhe por essas ruas e verá canteiros de obra a cada quarteirão. O que sobe não são coberturas de 300 m², mas estúdios de 19 a 25 m² e apartamentos de um ou dois quartos.

Dos lançamentos totais, 28,8% são unidades de um dormitório ou estúdios puros. Outros 66,5% têm dois quartos. Sobram menos de 5% para plantas maiores.

Por que o investidor aceita 19 m²

Cidinaldo Boschini, empresário goiano de 47 anos, mantém portfólio em vários estados. Seus estúdios paulistanos — entre 22 m² e 25 m² — entregam taxa de ocupação de 70% a 75% o ano inteiro, com pouca sazonalidade.

“A grande vantagem de São Paulo é a constância”, resume. Ele não revela quantas unidades possui, mas admite: o retorno financeiro supera outros ativos imobiliários que mantém.

A máquina do “short stay”

Incorporadoras como a Vitacon desenham empreendimentos sob medida para esse público. Investidores representam 80% da clientela. A receita é previsível: bairros adensados, farta mobilidade e um cardápio de comodidades que compensa a metragem enxuta.

  • Academia equipada
  • Coworking
  • Lavanderia compartilhada
  • Espaços de convivência

O Vitacon Alameda Franca, no Jardim Paulista, terá 182 unidades entre 19 m² e 37 m², a R$ 30 mil a R$ 35 mil o metro quadrado. Em Perdizes, o Vitacon Cardoso de Almeida reunirá 525 estúdios de 24 m² a R$ 22 mil o m².

Endereço nobre ou mobilidade?

Thiago Teixeira, gerente comercial do QuintoAndar, nota a mudança: “Antes, o investidor buscava endereço nobre. Hoje, a escolha está ligada à mobilidade urbana, proximidade de escolas e serviços”.

O último Índice de Aluguel QuintoAndar (setembro/2026) revela os bairros que mais valorizaram em 12 meses:

  • Alto de Pinheiros: +42%
  • Jardim Europa: +27,3%
  • Centro: +27,1%

Mas o recorte dos últimos três meses surpreende: Tucuruvi (+13,7%) e Parque Novo Mundo (+7,5%), ambos na Zona Norte, lideram a valorização recente.

O alerta sobre rentabilidade real

Vila Olímpia tem o metro quadrado mais caro e o aluguel mais alto. “Só isso não determina se o investimento é bom”, avisa Teixeira. “Em bairros com maior concorrência, a rentabilidade pode ser menor.”

A corrida por novos em prédios “moderninhos” inflou preços. Luiz Coelho da Fonseca, co-CEO da imobiliária homônima, revela um abismo histórico: “Novos sempre custaram 30% a 50% mais que usados. Hoje, chegam ao dobro.”

Oportunidade no usado — com ressalvas

O preço mais camarada atrai olhares para imóveis com alguns (ou muitos) anos de uso. Mas Fonseca lista armadilhas:

  • Prédios em reforma constante
  • Unidades sem vaga de garagem
  • Trechos de feira-livre
  • Vista emparedada ou sem privacidade

“Podem virar um pepino”, resume.

Selic a 13,75%: vilã ou aliada?

Juros altos encarecem financiamento e dificultam a casa própria. Para quem tem caixa, porém, abrem janelas. Boschini acredita no momento: “Taxa elevada dificulta venda e revenda, por isso é possível encontrar preços interessantes.”

Rodger Campos, professor do Insper Cidades, concorda — com condições: “Vale a pena dar 30% de entrada e financiar o resto, desde que o apartamento já esteja pronto para alugar.”

Na planta, o risco sobe. “A valorização patrimonial precisa ser bem alta para compensar anos de espera. Depende do planejamento do governo para a vizinhança e de variáveis que podem fazer o imóvel valorizar ou depreciar.”

Checklist prático antes de assinar

  • Liquidez: apartamentos vendem mais rápido que casas; casas em condomínio superam casas de rua
  • Regulamento: nem todo prédio permite aluguel por temporada — consulte a convenção
  • Entorno: shopping novo valoriza; viaduto pode desvalorizar
  • Tipologia: um dormitório tem melhor preço por m², mas reajuste de aluguel em dois quartos acelera mais
  • Consolidado vs. expansão: bairros maduros são caros; áreas em expansão têm mais upside, mas risco maior
  • Âncoras: hospitais e universidades garantem demanda, mas atraem concorrência que derruba preços
  • Diversificação: dois de 25 m² rendem mais que um de 50 m²

O que observar daqui para frente

O ciclo de lançamentos compactos não dá sinais de arrefecimento. O gatilho a monitorar é a taxa Selic: se começar a cair, o financiamento volta a fluir, pressionando preços de novos e usados simultaneamente. Outro termômetro é a taxa de ocupação do “short stay” — se cair consistentemente abaixo de 65%, o modelo perde atratividade. Por enquanto, o relógio segue a favor de quem tem caixa e estômago para metragens mínimas.