Um casal de artesãos no Piauí fatura o ano inteiro com peças que chegam a 150 quilos e exigem logística de fábrica — mas tudo começa num forno de barro em fevereiro.
Rafael Pereira e Lígia Pimentel transformaram a olaria familiar no Polo Cerâmico do Poti Velho numa operação que antecipa o Natal em quase um ano. O motivo não é sazonalidade: é física.
Por que a produção começa no carnaval
Uma escultura de dois metros não seca em uma semana. A argila precisa de semanas para perder umidade sem trincar, depois enfrenta queima em forno a lenha e, por fim, a pintura minuciosa de Lígia.
O ciclo completo consome até 15 dias por peça. Multiplique por dezenas de encomendas e a conta fecha: sem começar em fevereiro, não há estoque para dezembro.
Da mesa de centro ao hall de hotel: a faixa de preço
- Entrada: 30 cm, 14 peças (Sagrada Família, Reis Magos, animais) — R$ 360.
- Topo de linha: José e Maria com 2 metros + menino Jesus proporcional — três peças, 150 kg, R$ 18 mil.
O conjunto grande é partido ao meio para caber no forno. Duas queimas, dois transportes, uma montagem no local do cliente.
Onde está a margem real do negócio
Rafael domina a modelagem desde os 13 anos; aos 42, acumula dez natais consecutivos de venda garantida. Lígia migrou da iniciativa privada há 17 anos e comanda a gestão comercial.
Juntos, eles descobriram que o presépio não é produto de sazonalidade. Turistas e colecionadores aparecem o ano todo — muitos sabem que não voltarão em dezembro.
Por isso, a vitrine mantém pelo menos uma peça exposta em janeiro, julho, setembro. O fluxo de caixa agradece.
Além do religioso: diversificação que segura o ateliê
Imagens de santos, réplicas de arte rupestre da Serra da Capivara e objetos decorativos completam o portfólio. Mas os presépios respondem pela fatia principal do faturamento.
A estratégia é simples: produto de alto valor agregado, ciclo longo, cliente fiel que paga pela autenticidade do feito à mão.
O que observar daqui para frente
O casal planeja manter o ritmo: dez grandes presépios por ano, produção iniciada no primeiro trimestre, entrega escalonada até novembro. Não há automação prevista — o diferencial está na marca manual.
Para quem estuda negócios artesanais de alto ticket, o caso ensina: antecipação logística vale mais que campanha de Black Friday. O Natal de 2026 já está sendo modelado agora, em silêncio, no barro do Poti Velho.
