Um novo mapa do mercado de trabalho revela uma transição brutal: a inteligência artificial eleva a produtividade a patamares históricos, mas derruba a escada de acesso para os mais jovens. O livro “Trabalho e Emprego Onde?” expõe como essa assimetria já opera no Brasil.
A obra, organizada por Fabio Giambiagi, Letícia Magalhães e Paulo Faveret, compila análises de economistas sobre um fenômeno que não atinge todos igual. De um lado, salários disparam no campo; do outro, cargos de entrada somem nos escritórios.
O campo que encolheu o pessoal, mas inchou o salário
O agronegócio é o caso mais radical. Entre 2012 e 2025, o número de trabalhadores diretos na produção agrícola caiu 23,8% — foram 2,4 milhões de postos a menos. Ao mesmo tempo, a produtividade por hora saltou 444% desde 1995, passando de R$ 7,50 para R$ 40,80.
A conta fecha porque o perfil mudou. A contratação de profissionais com ensino superior no setor explodiu 107,6% no período. O resultado prático: o rendimento médio real dos trabalhadores rurais subiu 33%.
O efeito não parou na porteira. Nos chamados “Clusters Agro”, a taxa de desocupação desabou para 5,1% em 2025. O setor de serviços nas regiões vizinhas absorveu 53,4 milhões de ocupados, puxado pela riqueza gerada no campo.
Mas há um detalhe crucial: segundo Felippe Serigati, a IA na lavoura ainda “engatinha”. Hoje, a tecnologia pesa mais na gestão e no comércio do que no plantio propriamente dito. Estamos, nas palavras dele, “numa sala escura cheia de objetos”, tateando o real alcance das ferramentas.
O gargalo invisível nos escritórios e no Estado
Se no agro a máquina substitui o braço, nos escritórios ela substitui o raciocínio inicial. Felipe Buchbinder, Ana Barufi, Francisco Gaetani e Luiz Alberto dos Santos mostram que a IA generativa assumiu tarefas de base: relatórios, triagens, análises preliminares.
O impacto direto é a evaporação dos cargos júnior. Sem essas funções, o jovem perde o “treino de bancada” — a aprendizagem prática que transformava estagiário em sênior. A exigência de entrada subiu: hoje se pede pensamento sistêmico e liderança de quem mal saiu da faculdade.
No serviço público federal, o recorte é numérico e silencioso. Cerca de 104 mil cargos (20% do total) têm alta propensão à automação. A vulnerabilidade concentra-se em suporte à saúde, educação e rotinas administrativas.
Como a estabilidade veda demissões, o enxugamento virá pela não reposição de aposentadorias. Some-se a isso a idade média dos servidores (perto dos 50 anos) e o déficit de talentos digitais: o risco é o Estado ficar refém de uma governança analógica num mundo algorítmico.
O que muda para quem contrata e para quem busca vaga
- Requalificação urgente: não é opcional; é condição de permanência no mercado formal.
- Fim da “escada” tradicional: a progressão linear (júnior → pleno → sênior) quebrou. A entrada exige competências de meio de carreira.
- Setor público em transição forçada: a governança algorítmica deixa de ser modernização para virar sobrevivência institucional.
- Geopolítica do talento: no cenário global, analisado por Marcello Pio e Rodrigo Mendes Leal, capacitação e regulação de IA viraram itens de segurança nacional.
O que observar daqui para frente
A assimetria exposta no livro não é uma previsão — é um diagnóstico do presente. O setor privado já sente a falta de mão de obra qualificada para operar a nova camada tecnológica, enquanto o público arrisca paralisia por inércia demográfica.
Para o profissional, a leitura prática é clara: a barreira de entrada subiu e a curva de aprendizado encurtou. Quem não dominar a lógica dos algoritmos — seja no campo, no escritório ou na gestão pública — corre o risco de ficar do lado de fora da sala onde as decisões são tomadas. Acompanhar a velocidade da requalificação nos setores mais expostos (tecnologia, agro, administração) será o termômetro real da empregabilidade nos próximos dois anos.
