Economia

Inflação descola da meta e juros podem subir: o que o mercado precificou pós-eleição

Gráfico mostra expectativa de inflação 2025 em 5,3%, acima da meta de 3% do Banco Central
Pesquisa BGC Liquidez revela inflação esperada para 2025 em 5,3%, um ponto acima do Focus pré-eleição.

As expectativas de inflação para 2027 e 2028 dispararam nos dias seguintes ao segundo turno, colocando o IPCA bem acima do teto da meta do Banco Central. Uma pesquisa da BGC Liquidez com 30 gestores e tesourarias mostra a mediana para o ano que vem em 5,3% — um ponto percentual acima do que o relatório Focus indicava antes da votação.

O número assusta: a meta oficial é 3%, com tolerância de 1,5 ponto. Ou seja, o teto aceitável seria 4,5%. A projeção atual já nasce estourando o limite.

Por que a régua subiu tão rápido

A BGC costuma antecipar o Focus em cerca de duas semanas. Seus respondentes revisam cenários com mais agilidade, o que torna o levantamento um termômetro sensível. Nesta edição, 11% dos analistas veem o IPCA acima de 6% no fim de 2027.

Três vetores explicam o movimento, segundo Carlos Thadeu, economista de inflação e commodities da corretora:

  • Ausência de âncora fiscal: o mercado precifica mais gastos pelo novo governo;
  • Dólar em alta: a moeda saltou de R$ 4,99 para R$ 5,44 em poucos dias;
  • Preços administrados: combustíveis pressionam o IPCA com o real mais fraco.

O câmbio que ninguém esperava

Thadeu estima que, sem os riscos fiscais atuais, o câmbio de equilíbrio estaria próximo de R$ 4,50. A diferença até os R$ 5,44 atuais repassa-se direto à bomba: o Brasil importa 30% do diesel que consome.

Gasolina e diesel mais caros elevam custos de transporte, logística e, por tabela, a cesta de consumo das famílias. É a inflação real batendo na porta do supermercado.

Escala 5×2: conta que fecha no custo do trabalho

Outro ponto citado pelo economista é a aprovação do fim da jornada 6×1. A mudança para 5×2 exigiria, na estimativa dele, pelo menos 10% a mais de mão de obra nos setores afetados.

Mais contratações pressionam salários e custos unitários. Em um cenário de desemprego baixo, o repasse para preços tende a ser rápido.

Fiscal: o buraco de R$ 250 bilhões

A dívida bruta já ronda 83% do PIB — maior nível em cinco anos. O governo projeta déficit de R$ 67,3 bilhões em 2024 (0,5% do PIB), o que faria a dívida subir ainda mais.

Economistas calculam que seria necessário um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos para estabilizar a trajetória. O ideal seria levar o superávit primário a 2% ou 2,5% do PIB até 2030, sem artifícios contábeis.

Até agora, não há sinalização clara de que a política fiscal caminhará nessa direção.

Juros: o corte que evaporou

Antes da eleição, a curva precificava Selic a 13,25% no fim de 2026. Hoje, a aposta majoritária é de manutenção nos 13,75% na reunião do Copom desta semana — chance de corte de 0,25 ponto é de apenas 20%.

Para 2025, a curva já embute alta de 1,5 ponto percentual. O Banco Central perde espaço para afrouxar a política monetária justamente quando a atividade dava sinais de arrefecimento.

O que observar daqui para frente

A próxima Focus, na terça-feira, confirmará se o movimento da BGC se espalhou pela amostra mais ampla. Dois gatilhos podem mudar o jogo: anúncio crível de contenção de despesas ou deterioração adicional do câmbio.

Enquanto a âncora fiscal não aparecer, a inflação projetada continuará fora da meta — e a Selic, no patamar restritivo. Para o empresário e o investidor, o recado é claro: planeje custos e financiamento com juros altos por mais tempo.