Economia

O segredo que impede os juros de cair: não é o ministro, é o gasto

Gráfico mostra taxa Selic alta e gastos públicos crescentes no Brasil, com destaque para equação fiscal
A taxa de juros real no Brasil é ditada pelo desequilíbrio fiscal, não por quem ocupa o Ministério da Fazenda.

A especulação sobre quem comandará a Fazenda domina os bastidores de Brasília, mas ignora a única variável que realmente move a taxa de juros real no Brasil. Enquanto o mercado aposta em nomes como Dario Durigan, Geraldo Alckmin ou Rafael Fonteles, a equação fiscal continua a ditar o ritmo da Selic — e ela não fecha com a regra atual.

A resposta para os juros elevados não está na capacidade técnica do próximo ocupante da cadeira, mas na velocidade com que o gasto primário consome o crescimento da economia. Entender essa dinâmica é o que separa a narrativa política da realidade do balanço de pagamentos.

O ruído da sucessão vs. a matemática fiscal

Debater a troca de ministro virou passatempo nacional, mas o diagnóstico estrutural permanece intocado há décadas. O Banco Central não erra ao manter a Selic restritiva; ele reage a um desequilíbrio crônico: o setor público gasta sistematicamente mais do que a economia produz.

Quando a despesa primária real cresce acima do PIB por longos períodos, o Estado avança sobre a poupança privada. O resultado é pressão inflacionária permanente e, como consequência direta, juros reais altos de forma estrutural. Não há política monetária que neutralize esse efeito sem gerar recessão ou descontrole de preços.

Os números que a liderança não quer ver

O histórico dos governos Lula escancara o padrão. Em apenas dois anos — 2003 e 2025 — o gasto primário real cresceu abaixo da economia. No restante do período, a média anual de expansão da despesa foi de 7,8%, praticamente o dobro da média de crescimento do PIB, que ficou em 4%.

  • 2003: Gasto caiu 3,9% | PIB subiu 1,1% (exceção virtuosa)
  • 2025: Gasto subiu 1,9% | PIB subiu 2,3% (exceção recente)
  • Média dos demais anos: Gasto +7,8% ao ano vs. PIB +4% ao ano

Essa assimetria não é um acidente de percurso; é a regra. Enquanto o numerador (gasto) correr mais que o denominador (economia), a dívida pública se alimenta de juros altos para se sustentar.

Por que aumentar imposto não resolve sozinho

O ministro Fernando Haddad obteve avanços relevantes na arrecadação e no desenho institucional, como o arcabouço fiscal. Contudo, a redução de subsídios e a elevação da carga tributária atuam, no melhor cenário, sobre o risco-país e a trajetória da dívida. Elas ajudam indiretamente, mas não atacam a raiz do juro real elevado: o excesso de demanda agregada gerado pelo gasto corrente.

Para derrubar a taxa estrutural de juros, o crescimento da despesa primária precisa ser igual ou inferior ao do PIB. Sem essa âncora, qualquer alívio monetário artificial reacende a inflação — roteiro já visto entre 2011 e 2014, com resultados desastrosos.

O gargalo está na decisão política

O nó não é técnico, é de vontade política. Todas as evidências apontam que a Presidência da República não estabelece a causalidade entre a trajetória do gasto e o nível dos juros. Se a liderança máxima não internaliza que gasto crescendo acima do PIB = juros altos permanentes, nenhuma reforma de fundo será priorizada.

Trocar o ministro sem mudar essa premissa é trocar o pneu furado de um carro que continua andando sobre pregos. O veículo vai parar de novo, pouco importa quem esteja no volante.

O que observar daqui para frente

Para o investidor e o empresário, o sinal de alerta não é o nome no Diário Oficial, mas a tramitação de duas agendas no Congresso: a revisão de gastos obrigatórios (previdência, pessoal, subsídios) e a regra de crescimento real da despesa atrelada ao PIB potencial.

Enquanto essas pautas não avançarem com votos reais, a Selic continuará sendo a variável de ajuste. O cenário base permanece: juros reais elevados, câmbio pressionado e prêmio de risco incorporado nos ativos longos. A oportunidade de queda estrutural existe, mas depende de uma decisão que, até agora, a liderança evita tomar.