A Turquia quer que a COP31, em novembro, estabeleça uma meta global: 35% da energia mundial consumida na forma de eletricidade até 2035. Hoje, esse número está em 23,4%.
O anúncio soa ambicioso, mas há um detalhe que muda tudo: a presidência turca não exige que a expansão venha de fontes limpas. E os números atuais mostram por que isso é perigoso.
O cenário real da geração mundial
Mais da metade da eletricidade produzida em 2025 ainda nasceu de combustíveis fósseis. O carvão respondeu por 33,6% e o gás natural por 21,3%. Juntos, somam quase 55% do total.
As renováveis avançam, mas partem de bases menores: hidrelétrica (14%), nuclear (8,9%), eólica (8,4%) e solar (8,3%). Sem uma trava explícita, a meta de eletrificação pode apenas trocar o óleo queimado em motores pelo carvão queimado em usinas.
O argumento turco: segurança antes de pureza
Taha Arvas, diretor-geral da Epias (operadora do mercado elétrico turco), resume a posição do país-sede:
- A queda de preço impulsionou renováveis.
- Mas segurança energética ainda exige fósseis.
- “A população não se importa com metas de carbono. Ela quer eletricidade.”
A Turquia importa 95% do gás e 65% do carvão que consome. Mesmo com 56% da geração nacional vinda de renováveis, as emissões do setor energético dobraram entre 2000 e 2024. A demanda cresceu mais que a oferta limpa.
Uma meta doméstica que não anda
O próprio país-sede expõe a contradição. A taxa de eletrificação da economia turca estaciona em 22% há anos. A meta oficial é chegar a 120 GW de renováveis até 2035 — hoje são 43 GW —, mas não existe plano para reduzir o uso de carvão.
Alkim Bağ, do Centro de Transição Energética Shura, em Istambul, é direta: “Propusemos a eletrificação para reduzir fósseis. Essa ligação deveria estar mais explícita.”
O que o Brasil tem a ver com isso
No Brasil, a eletrificação está em 20,9%, mas 86,6% da eletricidade já vem de renováveis. Rosana Santos, do Instituto E+ Transição Energética, avisa: só faz sentido perseguir os 35% se vier com ganho de competitividade industrial.
“A gente não precisa fazer por fazer”, diz ela. A tensão geopolítica — guerras na Ucrânia e no Oriente Médio — explica por que a Turquia escolheu esse tema: é uma pauta onde ainda há convergência possível.
O que observar daqui para frente
A COP30, em Belém, deixou pendente o roteiro de redução de fósseis — travado por países petroleiros. A dupla Turquia-Austrália tem a chance de recolocar o tema no centro. Para o empresário brasileiro, o sinal claro é: a eletrificação virá, mas a origem da energia definirá se ela significa custo menor ou apenas transferência de dependência. Acompanhe se a declaração final de Antália vinculará a meta a renováveis ou deixará a porta aberta para nuclear e gás.
