A especulação sobre o próximo ministro da Fazenda domina as manchetes, mas o diagnóstico está errado. Enquanto o mercado aposta em nomes, a taxa de juros real permanece elevada por uma razão estrutural que independe de quem ocupa a cadeira: o gasto primário cresce sistematicamente acima da economia.
Se o Banco Central cortar a Selic hoje sem resolver essa equação, a inflação retorna com força — um filme que o Brasil já assistiu entre 2011 e 2014 com resultados desastrosos.
O motor invisível que trava a Selic
O mecanismo é direto: quando a despesa pública acelera mais que o PIB numa economia operando no limite da capacidade, a demanda agregada pressiona a oferta. O resultado são juros reais altos de forma permanente para conter a inflação resultante.
Não se trata de erro do Banco Central. Trata-se de aritmética fiscal.
Os números que a liderança ignora
O histórico recente expõe o padrão com clareza. Em quase todos os anos de gestões petistas na Presidência, a despesa primária real superou o crescimento econômico — muitas vezes por margem larga.
- Média anual do gasto primário real: 7,8%
- Média anual do crescimento do PIB: 4,0%
- Diferença: gasto crescendo quase o dobro da economia
As exceções confirmam a regra: 2003 (gasto caiu 3,9% com PIB a 1,1%) e 2025 (gasto subiu 1,9% ante PIB de 2,3%). Fora esses dois anos, a regra foi expansão fiscal agressiva.
Por que trocar o ministro não resolve
Fernando Haddad entregou resultados técnicos respeitáveis. Ainda assim, não conseguiu sensibilizar a cúpula do governo para a necessidade de reformas que igualem a velocidade do gasto à da economia.
Sem esse alinhamento político, qualquer nome — seja o vice-presidente Geraldo Alckmin, o governador Rafael Fonteles ou a manutenção de Dario Durigan — esbarrará no mesmo teto: juros reais não caem enquanto a dinâmica de despesa não mudar.
A armadilha da receita extra
Elevar a carga tributária ou cortar subsídios ajuda no superávit primário e melhora a trajetória da dívida. Isso reduz o risco-país e, indiretamente, alivia o prêmio de risco nos juros longos.
Mas o juro real de equilíbrio — aquele que compatibiliza oferta e demanda sem gerar inflação — só recua se o crescimento do gasto primário for contido. Receita adicional sem regra de despesa apenas alimenta um ciclo vicioso.
O que observar daqui para frente
O sinal decisivo não virá do anúncio do novo titular da Fazenda. Virá de medidas concretas que limitem a expansão real das despesas obrigatórias abaixo do crescimento potencial do PIB.
Enquanto o presidente não internalizar que juros altos são consequência — e não causa — do descompasso fiscal, o cenário base para o investidor segue sendo Selic restritiva, câmbio pressionado e prêmio de risco elevado. A bola, de fato, está com a liderança. A pergunta é se ela será jogada para o gol ou para a lateral.
