Justiça

Aos 92 anos, ele trabalha no Planalto há 40 anos e não pensa em parar

Coronel José Wilson Pereira, 92 anos, trabalhando no Palácio do Planalto, funcionário mais antigo em atividade
Aos 92 anos, José Wilson Pereira é o servidor mais antigo em atividade no Palácio do Planalto, com 40 anos de serviço.

O coronel reformado José Wilson Pereira, aos 92 anos, é o funcionário mais antigo em atividade no Palácio do Planalto. Ele atravessou nove mandatos presidenciais sem nunca ocupar cargo político — e não tem data para sair.

A trajetória dele expõe uma brecha jurídica rara: como foi recontratado sob regime CLT após anistia, não se aplica a aposentadoria compulsória aos 75 anos. Quando ele sair, a vaga será extinta.

De atleta olímpico a testemunha da história

Antes de vestir paletó, Wilson representou o Brasil no pentatlo moderno em Roma (1960) e Tóquio (1964). Em 1963, cravou 3min54s nos 300 metros nado do Pan de São Paulo — recorde mundial da prova na época.

Entrou no Exército em 1952, ainda no governo Getúlio Vargas. A formatura na Aman teve a assinatura de Juscelino Kubitschek. O golpe de 1964 o pegou em plena preparação olímpica: uma semana de prontidão no quartel, depois ordem para “mostrar que a situação estava normal” e seguir treinando.

A demissão em massa e o retorno pela porta dos fundos

Em 1990, o governo Collor exonerou cerca de 108 mil servidores. Wilson estava na lista. A anistia veio no governo Itamar Franco, mas Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, condicionou a reintegração a exigências documentais que atrasaram o processo por anos.

“No meu crachá tinha ‘anistiado’. Eu dizia: ‘Não sou anistiado político, sou anistiado do Collor'”, conta.

Só em 2009, no segundo mandato de Lula, a reintegração saiu — já no modelo celetista. Isso mudou tudo.

Por que a CLT permite que ele fique

  • Servidores estatutários: aposentadoria obrigatória aos 75 anos
  • Empregados públicos (CLT): sem teto etário por lei
  • Hoje, só 7 pessoas na casa dos 90 anos no serviço público federal — todas anistiadas do Plano Collor

A brecha é técnica, mas o impacto é prático: a experiência institucional não se aposenta por decreto.

O dia a dia de quem lê o Diário Oficial antes do café

Na Secretaria de Relações Institucionais, Wilson monitora decretos de emergência — enchentes, secas, calamidades — e liga para prefeitos explicando como acessar kits de saúde, antecipação do FGTS e outros instrumentos federais.

“Isso aqui não é trabalho, me dá prazer. Faço direito, sou prestigiado e ainda ganho. Vou ficar em casa fazendo o quê?”, resume.

O que o 8 de Janeiro mudou na rotina dele

Ver o Palácio depredado o abalou. “É impossível não ficar tocado”, admite. Mas recusa-se a comentar política. Em 2003, negou convite para se filiar ao PMDB quando era secretário nacional de Defesa Civil. “Não tenho DNA para a política. Se o técnico cumpre seu dever, contribui para a democracia.”

O custo pessoal de uma vida no Estado

Casado há 68 anos com Selva, pai de três, avô de quatro netas e bisavô de três. Ele reconhece: “Dei mais importância à profissão do que à família. Por sorte, tinha uma mulher que segurou a barra. Hoje procuro me redimir.”

O que observar daqui para frente

O modelo de recontratação CLT para anistiados cria um precedente silencioso: servidores com memória institucional de décadas podem permanecer ativos além do teto estatutário. Enquanto a regra não mudar, cada saída definitiva apaga um arquivo vivo de como a máquina pública funciona — e por que, às vezes, trava.