Empresas de capital espanhol abocanharam 96% dos investimentos previstos no leilão de transmissão desta sexta-feira (30), consolidando uma posição de força que redesenha o mapa da infraestrutura elétrica brasileira nos próximos cinco anos.
Dos R$ 8,9 bilhões ofertados pela Aneel, R$ 8,56 bilhões ficaram com grupos vindos da Espanha — um recado claro sobre onde o capital estrangeiro enxerga retorno garantido no setor.
O lote bilionário que define o jogo no Centro-Oeste
A Celeo Redes Brasil, hoje sob o guarda-chuva da francesa Vinci via Cobra IS, levou o prêmio maior: o Lote 1, orçado em R$ 4,1 bilhões. As obras vão cruzar Mato Grosso do Sul com linhas de 500 kV e subestações que prometem desafogar gargalos históricos no escoamento de energia solar e eólica da região.
Não parou por aí. A mesma Celeo arrematou o Lote 2, em Rondônia, com mais R$ 753,2 milhões em compromissos. Juntos, os dois projetos representam mais da metade de todo o capital novo injetado no certame.
Cymi e Neoenergia dividem o Sul e o Nordeste
Enquanto a Celeo foca no Centro-Oeste e Norte, a Cymi — veículo de fundos de infraestrutura com DNA espanhol — garantiu presença forte no Sul e Sudeste:
- Lote 3 (São Paulo): R$ 1,07 bilhão para reforço no interior paulista;
- Lote 4 (Paraná): R$ 982,5 milhões em linhas e subestações.
A Neoenergia, braço da Iberdrola no Brasil, ficou com dois lotes no Nordeste — Bahia e Paraíba —, somando R$ 1,16 bilhão. A Cox, outra de origem espanhola, completou a hegemonia ao levar o Lote 6 no Paraná por R$ 480,25 milhões.
A única exceção lusitana
Coube à portuguesa EDP o único lote fora do radar espanhol: o Lote 5, que conecta Goiás à Bahia, com R$ 317 milhões. Um tíquete menor, mas estratégico para a integração entre o Nordeste produtor e o Centro-Sul consumidor.
O resultado expõe um padrão: grupos europeus com balanço forte e apetite por ativos regulados de longo prazo seguem ditando o ritmo da expansão da malha brasileira.
Prazos, receita e o que vem a seguir
Os contratos têm vigência de 30 anos e receita anual permitida (RAP) total estimada em R$ 820 milhões. As vencedoras terão de 48 a 60 meses para entregar as obras, a depender da complexidade de cada lote.
A Aneel sinalizou que o próximo certame, previsto para o segundo semestre, deve trazer lotes com maior componente de tecnologia — compensadores síncronos, baterias e sistemas de controle avançado. Quem já tem pé no chão sai na frente.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se o capital comprometido vira aço e concreto no prazo: licenciamento ambiental nos trechos de Mata Atlântica e Cerrado, cadeia de fornecedores de torres e cabos sob pressão de demanda global, e a capacidade das concessionárias de gerir múltiplos canteiros simultâneos. O leilão foi o sinal de largada; a execução é que define o jogo.
