A alta do querosene de aviação (QAV) forçou as companhias a encolherem a malha doméstica prevista para novembro em 5%, tirando cerca de 500 mil assentos do mercado. A revisão da Abear derruba a expectativa de crescimento de 9,4% para modestos 4,2% na comparação anual. O combustível já consome quase metade do custo operacional das empresas.
O recuo não significa cancelamentos em massa de passagens já vendidas, mas uma oferta menor do que a planejada meses atrás. Para o passageiro, a conta chega na forma de tarifas mais altas e menos opções de horários.
O choque nos números da Anac
Em abril, o sistema da Anac registrava 69.545 voos programados para novembro. No fim de outubro, esse total caiu para 66.210. A diferença de 3.335 operações equivale a uma frota inteira deixando de voar em um único mês.
O QAV responde hoje por 46% das despesas operacionais do setor. Cada centavo de alta no litro do combustível empurra as companhias para decisões duras: reduzir frequências, adiar estreias de rotas ou repassar o custo ao bilhete.
Mapa da retração: Norte e Nordeste sangram mais
O impacto não é uniforme. Dezenove dos vinte e sete estados terão menos voos do que o previsto. Sergipe lidera a queda com 24,8% a menos, seguido pela Bahia (-17,4%). Ambos superam com folga a média nacional de retração.
Nos grandes hubs, a redução também aparece: São Paulo deve encolher 3,8% e o Rio de Janeiro, 7,7%. A lista de perdas inclui ainda:
- Maranhão: -12,1%
- Pará: -9,5%
- Ceará: -8,9%
- Pernambuco: -6,2%
O contraponto: onde a malha ainda cresce
Oito estados escapam da tesoura e mantêm expansão, puxados principalmente pela conectividade regional na Amazônia Legal. Roraima lidera com alta de 15,3%, seguido por Acre (11,4%) e Rondônia (10,8%).
Amazonas (+9,6%), Tocantins (+8,4%), Mato Grosso do Sul (+4%), Piauí (+3%) e Santa Catarina (+0,3%) completam o grupo. A exceção catarinense sugere que o turismo de lazer no Sul segue resiliente mesmo com custos pressionados.
Tarifa ao passageiro já subiu 18,5% em 2026
O repasse ao consumidor já é realidade. Dados da Anac mostram que o preço médio da passagem doméstica saltou de R$ 629,95 em fevereiro para R$ 746,57 em setembro. A escalada coincide com a instabilidade geopolítica no Oriente Médio, que pressionou o barril do petróleo e, em cascata, o refino do QAV no Brasil.
Com a oferta encolhendo e a demanda de fim de ano aquecida, a tendência natural é de novas altas no bilhete médio nas próximas semanas.
O que observar daqui para frente
O cenário para o verão depende de duas variáveis: o comportamento do dólar e a política de preços da Petrobras para o QAV. Se o câmbio permanecer acima de R$ 5,70 e não houver alívio na paridade internacional, o primeiro trimestre de 2027 pode começar com malha ainda mais comprimida.
Investidores e gestores de viagem corporativa devem monitorar os relatórios mensais da Anac e os boletins de custo da Abear. A redução de 5% em novembro pode ser apenas a primeira rodada de ajustes se o barril não recuar.
