A Petrobras fechou outubro com as refinarias operando a 98% da capacidade, mantendo o ritmo frenético do terceiro trimestre. O resultado empurra a importação de diesel para perto de zero em dezembro, mas esconde um desafio bilionário no horizonte.
O diretor William França confirmou que o parque industrial roda no limite da segurança, sem paralisações relevantes. A estratégia é clara: transformar o barril caro do Brent em caixa imediato.
O motor por trás do recorde
Desde o agravamento do conflito no Oriente Médio, a estatal acelerou a produção para capturar a alta do petróleo internacional. O movimento permitiu operar acima da capacidade nominal em certos momentos, usando uma “reserva técnica” das unidades.
O ganho não é apenas operacional. O spread do diesel — diferença entre o preço do derivado e o do petróleo — atingiu níveis históricos, beirando o preço do próprio Brent. “Produzimos mais, vendemos mais e com preço melhor”, resumiu França.
Esse cenário turbinou a margem de derivados, eleita o “grande mocinho” do balanço do terceiro trimestre. O efeito direto é um fluxo de caixa mais robusto para a companhia.
O que muda em dezembro: a virada do mix
O cenário atual tem data para mudar. Com a chegada do verão e o fim da safra de plantio, a demanda por diesel cai e a gasolina assume o protagonismo.
- Gasolina: produção maximizada para atender ao consumo sazonal.
- Diesel: oferta reduzida; importação projetada em “quase zero”.
- Utilização: permanece elevada, mas com outro perfil de saída.
A transição é cirúrgica: evita estocar combustível errado e preserva a margem no último mês do ano.
O freio programado para 2027: ampliação da Replan
O primeiro grande teste de estresse vem no primeiro semestre de 2027. Uma parada combinada com obras de expansão na Replan (SP) tirará a maior refinaria do país de combate por cerca de dois meses, entre março e abril.
Outras unidades serão puxadas ao máximo, mas França admite: não compensa a perda. A utilização global deve cair para 96%. Parece pouco, mas representa uma quebra brusca frente ao patamar atual de quase 100%.
O detalhe crucial: mesmo 96% é “muito alto para o histórico da companhia”. A nova normalidade é operar no teto.
Margens de refino: o pilar financeiro invisível
Enquanto o mercado foca no preço do barril, a Petrobras lucra na transformação. O alto processamento aliado ao spread do diesel criou uma almofada de resultado que pouca gente projeta nos modelos.
Não há promessa de que o spread se sustente. A geopolítica dita o ritmo, mas a exposição atual da estatal a esse ganho é total. Qualquer compressão na margem do diesel atinge o caixa com velocidade.
O horizonte de 2030: autossuficiência no papel
O novo Plano de Negócios, previsto para novembro, trará os números para zerar a importação de diesel até 2030. Hoje, o Brasil compra fora cerca de 30% do que consome.
A conta envolve ampliar a Replan, concluir a RNEST e viabilizar unidades de hidrotratamento. O capital necessário é alto e compete com a remuneração ao acionista. O mercado vai julgar a viabilidade econômica, não só a meta volumétrica.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo trimestre: a sustentação do spread do diesel no mercado internacional, a execução rigorosa do cronograma da Replan sem vazamentos de prazo e a alocação de capex no plano de novembro. Se o spread cair antes da ampliação ficar pronta, a janela de “caixa fácil” fecha mais cedo do que o esperado.
