A taxa de desocupação caiu para 5,2% no terceiro trimestre de 2026, o menor patamar para o período desde 2012. Mas, enquanto o mercado de trabalho bate recordes, a informalidade segue acima de 37% e o rendimento real mal acompanha a inflação.
Os números da Pnad Contínua, divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira (30), mostram um cenário de contrastes que afeta direto o bolso de quem empreende, investe ou negocia salário.
O fato: mercado de trabalho no nível mais apertado em 14 anos
São 5,6 milhões de desocupados — 234 mil a menos que no trimestre anterior e 417 mil a menos que um ano atrás. Ao mesmo tempo, a população ocupada atingiu 103,6 milhões, o maior contingente da série histórica. O nível de ocupação, que mede a proporção de gente trabalhando entre os em idade ativa, chegou a 59%, também recorde.
Em tese, isso significa poder de barganha para o trabalhador. Na prática, a história tem nuances.
Por que a informalidade não cede
Apesar do recorde de vagas, 38,8 milhões de pessoas seguem na informalidade — 37,5% do total ocupado. O percentual praticamente não se moveu: era 37,4% no trimestre passado e 37,8% há um ano.
- 38,8 milhões de trabalhadores informais
- 37,5% da ocupação total
- Estabilidade na comparação trimestral e anual
Isso indica que parte relevante das novas vagas nasce sem carteira assinada, sem proteção previdenciária e sem floor salarial. Para empresas, significa custo de mão de obra ainda contido. Para o trabalhador, renda volátil e ausência de benefícios.
Rendimento: ganho real existe, mas perde fôlego
O rendimento real habitual médio ficou em R$ 3.790 — estável frente ao trimestre anterior, mas 3,6% acima do mesmo período de 2025 (ganho de R$ 131). A massa de rendimentos, soma de todos os salários, bateu R$ 387,5 bilhões, alta de 1,5% no trimestre e 4,7% no ano.
O crescimento da massa supera o da ocupação, sugerindo que quem já estava empregado teve reajustes acima da inflação. Mas a estabilidade na margem (trimestre contra trimestre) acende sinal amarelo: o fôlego dos reajustes pode estar acabando.
O que isso muda para quem decide negócios
Mercado de trabalho apertado pressiona custos. Setores que dependem de mão de obra pouco qualificada — construção, serviços, varejo — sentem primeiro. A informalidade alta funciona como válvula de escape, mas limita ganhos de produtividade.
Para o investidor, a combinação de desemprego baixo + massa salarial recorde sustenta o consumo das famílias no curto prazo. O risco está na política monetária: se o Banco Central ler esses dados como pressão inflacionária, a Selic pode demorar a cair.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo capítulo: (1) se a taxa de participação segue subindo, trazendo mais gente para o mercado e aliviando a pressão salarial; (2) se a informalidade começa a recuar, sinalizando formalização real; (3) se o rendimento real volta a crescer na margem, garantindo fôlego ao consumo sem depender só de endividamento.
O dado de outubro, que sai em novembro, dirá se o recorde de 5,2% foi piso ou apenas uma pausa.
