Um fundo de private equity de Hong Kong fechou a aquisição de 51% da Evergrande Property Services por US$ 513 milhões, arrancando o principal ativo saudável das cinzas da maior incorporadora endividada do mundo. A operação injeta dinheiro fresco na massa falida — um evento raro desde o colapso de 2021. A grande incógnita agora é se o modelo se repete ou se continuará sendo exceção.
O que a PAG levou para casa
A compradora é a PAG, gestora comandada pelo financista Weijian Shan. O acordo, anunciado na sexta-feira (30), prevê o pagamento de US$ 513 milhões (cerca de R$ 2,76 bilhões) pelo controle acionário, mais 500 milhões de yuans (R$ 407 milhões) para cobrir custos dos liquidantes.
O valor representa um desconto de aproximadamente 30% frente ao fechamento das ações em Hong Kong na véspera da suspensão dos negócios. Mesmo com o “desconto de liquidação”, a transação é vista como a melhor saída possível para um ativo que vinha sangrando valor de mercado.
- Comprador: PAG (Hong Kong)
- Ativo: 51% da Evergrande Property Services
- Preço base: US$ 513 milhões
- Custos extras: 500 milhões de yuans (R$ 407 mi)
- Desconto vs. tela: ~30%
Por que essa venda é um marco para os credores
Desde que a unidade de Hong Kong entrou em liquidação judicial em 2024, os liquidantes da Alvarez & Marsal travavam uma batalha para transformar ativos em caixa. Eddie Middleton, um dos responsáveis pelo processo, classificou o desfecho como resultado de um “processo amplo e competitivo”.
Até aqui, a recuperação era irrisória: apenas US$ 436 milhões haviam voltado para as mãos de credores que reclamam US$ 46 bilhões. A venda da subsidiária de serviços era tida como a “joia da coroa” — a principal fonte real de recursos ao lado de ações judiciais.
O tamanho do buraco ainda aberto
Para dimensionar o desafio: a Evergrande ruiu em 2021 com passivos superiores a US$ 300 bilhões (R$ 1,63 trilhão). O modelo de negócio — usar dinheiro de sinal de apartamentos para erguer novos prédios — travou quando as vendas secaram.
Os liquidantes já admitiram que recuperar ativos na China continental é “considerado remoto”. Isso deixa a operação da PAG como um oásis isolado em um deserto de baixas recuperações.
A guerra judicial contra a PwC e o que vem pela frente
Paralelamente à venda, os liquidantes miram a auditoria. Processos movidos contra a PwC na China, em Hong Kong e na entidade global pedem US$ 8,5 bilhões (R$ 46,2 bilhões) por falhas na fiscalização das contas. A Evergrande foi condenada por inflar fraudulentamente receitas nos anos anteriores ao colapso.
Há ainda uma disputa sobre um acordo de 1 bilhão de dólares de Hong Kong (R$ 690 milhões) fechado entre a PwC Hong Kong e o regulador local. Os liquidantes argumentam que o acerto ignorou a prioridade legal dos credores no rateio dos recursos.
O que observar daqui para frente
A reação imediata do mercado foi cética: as ações da Evergrande Property Services caíram 17,7% no anúncio, levando o valor de mercado a 10,5 bilhões de dólares de Hong Kong (R$ 7,06 bilhões). O sinal sugere que investidores duvidam da capacidade da nova controladora de reverter a deterioração operacional ou temem novos descontos em ativos remanescentes.
Os próximos passos dependem de duas frentes: a conclusão burocrática da transferência de controle — ainda sujeita a aprovações — e o desfecho das ações contra a PwC. Se a Justiça validar os pedidos de indenização bilionários, o fluxo de caixa para credores muda de patamar. Caso contrário, a venda para a PAG ficará registrada como o único grande acerto em um processo de liquidação historicamente deficitário.
