Internacional

Tarifas, PCC e Pix: A Relação Explosiva Entre Flávio e Trump

Flávio Bolsonaro e Donald Trump apertando as mãos em reunião oficial na Casa Branca
Senador Flávio Bolsonaro e ex-presidente Trump em encontro nos EUA discutindo relações bilaterais

Flávio Bolsonaro desembarcou nos Estados Unidos em meio a uma teia de afinidades ideológicas e silêncios estratégicos com Donald Trump. Apesar do alinhamento retórico, o presidente americano recusou-se a endossar publicamente o senador nas urnas brasileiras. O que explica essa distância tática e quais foram os pedidos concretos feitos nos bastidores da Casa Branca?

O “não envolvimento” de Trump e o cálculo eleitoral americano

Questionado sobre a carta em que Flávio se autodeclarava líder do Brasil, Trump foi direto: “Não vou me envolver”. A justificativa veio no dia seguinte: o republicano afirmou ter atendido a um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para não tomar partido na disputa brasileira. “Deixei as coisas seguirem seu curso”, disse.

O pano de fundo era a eleição de meio de mandato nos EUA, marcada para o início de novembro, com projeções favoráveis aos democratas no Congresso. Nesse cenário, Trump evitou atritos diplomáticos que pudessem custar capital político interno, mantendo a porta aberta para o governo brasileiro sem fechar acordos com a oposição.

O encontro na Casa Branca: PCC, CV e minerais críticos

Em maio de 2026, a dinâmica mudou. Flávio foi recebido no Salão Oval e, no dia seguinte, reuniu-se com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. A pauta foi densa e saiu do campo simbólico:

  • Segurança: pedido formal para classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
  • Justiça: discussão sobre os processos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
  • Economia: tarifas comerciais e cooperação na exploração de minerais críticos.

O resultado prático veio em junho: Washington oficializou a designação terrorista às duas facções. A medida permite bloqueio de ativos, veto a transações financeiras e punição a quem prestar apoio material aos grupos. O governo brasileiro opôs-se, alegando risco à soberania, enquanto o promotor Lincoln Gakiya alertou para “problemas operacionais” no combate ao crime organizado.

Tarifas de 25% a 50%: a conta chegou para o agronegócio

Horas após anunciar um novo pacote tarifário contra o Brasil, Trump publicou foto com Flávio chamando-o de “jovem inteligente que ama o Brasil”. Em julho, as taxas de 25% sobre produtos brasileiros foram confirmadas após investigação comercial, escalando para 50% em anúncio posterior.

Flávio reagiu com carta a Rubio pedindo a suspensão das taxas até uma eventual posse sua na Presidência, argumentando prejuízos à população. Propôs, ainda, negociar acordo comercial bilateral futuro. O episódio foi usado pelo Palácio do Planalto para acusar a família Bolsonaro de articular pressão externa contra o país.

O Pix na mira: defesa de “marco do governo Bolsonaro”

O sistema de pagamentos instantâneos entrou no radar comercial americano como ameaça a Visa e Mastercard. Citado como justificativa para o segundo tarifaço, o Pix motivou manifestação formal de Flávio ao USTR (Escritório do Representante de Comércio) em julho.

No documento, o senador assumiu “compromisso legislativo” de não internacionalizar o sistema, listou serviços que cartões oferecem e o Pix não substitui — crédito, financiamento, chargeback — e citou o FedNow, equivalente americano. Classificou as acusações de conflito de interesse como “exageradas”.

Lei Magnitsky: sanções a Moraes e a reversão silenciosa

Flávio comemorou a imposição de sanções ao ministro Alexandre de Moraes (STF) sob a Lei Magnitsky, em julho de 2025, publicando “We want Magnitsky”. Washington acusou o magistrado de censura, detenções arbitrárias e violações de direitos humanos. O governo Lula classificou a medida como interferência inaceitável.

Em dezembro do mesmo ano, porém, o nome de Moraes foi retirado da lista de sancionados. O movimento sugere que a pressão teve prazo de validade atrelado ao calendário político americano, não a uma condenação definitiva da estrutura judicial brasileira.

O que observar daqui para frente

A relação desenha um padrão: alinhamento ideológico forte, mas subordinação aos interesses eleitorais e comerciais imediatos de Washington. Para investidores e empresários, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a evolução das tarifas sobre commodities e manufaturados, a implementação prática das sanções às facções (e seus reflexos no *compliance* bancário) e a tramitação de eventuais acordos de minerais críticos. A aproximação rende manchetes, mas a caneta que assina decretos segue ditando o ritmo real dos negócios.