A Aneel confirmou nesta sexta-feira (30) que a bandeira tarifária segue verde em novembro: pelo segundo mês seguido, não haverá cobrança adicional na conta de luz. A decisão afeta diretamente o bolso de 89 milhões de unidades consumidoras conectadas ao Sistema Interligado Nacional.
Mas a manutenção da cor verde carrega um sinal de alerta que poucos analistas estão comentando. Entenda o que está por trás da estabilidade — e por que ela pode não durar.
O que mudou desde outubro
Em setembro, o país ainda pagava a bandeira amarela, que adicionava R$ 1,88 a cada 100 kWh consumidos. O regime vigorou por cinco meses consecutivos, pressionando orçamentos residenciais e industriais. A virada para verde em outubro coincidiu com o início do período chuvoso nas bacias do Sudeste e Centro-Oeste, onde concentram-se as maiores usinas hidrelétricas do país.
Os reservatórios dessas regiões saíram de níveis críticos para uma faixa de conforto operacional. Com água suficiente, o Operador Nacional do Sistema (ONS) reduziu o despacho de termelétricas — fontes mais caras e poluentes — aliviando o custo marginal da geração.
Como a bandeira verde impacta seu custo real
Na prática, a tarifa verde significa zero acréscimo na conta. Para comparação, veja o que cada cor representa no bolso do consumidor:
- Verde: R$ 0,00 a cada 100 kWh
- Amarela: R$ 1,88 a cada 100 kWh
- Vermelha Patamar 1: R$ 4,46 a cada 100 kWh
- Vermelha Patamar 2: R$ 7,87 a cada 100 kWh
Uma residência que consome 300 kWh/mês economiza cerca de R$ 5,60 frente à bandeira amarela. Em escala industrial, a diferença chega a milhares de reais por mês — o que explica a atenção do setor produtivo a cada anúncio mensal.
O fator climático que ninguém controla
A estabilidade atual depende inteiramente da continuidade das chuvas. O modelo de bandeiras, criado em 2015, foi desenhado justamente para repassar ao consumidor a volatilidade hidrológica: quando chove pouco, acionam-se termelétricas e a conta sobe; quando chove muito, a bandeira fica verde.
Meteorologistas acompanham de perto a transição para o verão 2026/2027. Projeções indicam influência de La Niña fraca, o que historicamente favorece chuvas no Sul e seca no Nordeste — um cenário misto para o SIN. Se os reservatórios do Sudeste não se recuperarem até dezembro, o risco de retorno à bandeira amarela em janeiro cresce.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo anúncio, previsto para final de novembro: volume de afluências nos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste, demanda de carga (que costuma subir com calor e fim de ano) e disponibilidade de geração eólica e solar, que vêm ganhando participação na matriz.
Para o gestor de custos, a recomendação prática é clara: aproveite a janela verde para revisar contratos de demanda e avaliar migração para o mercado livre, onde a exposição à bandeira tarifária pode ser gerenciada via contratos bilaterais. A previsibilidade que a bandeira verde oferece hoje é temporária — e o planejamento energético de 2027 começa agora.
