A arroba do boi gordo rompeu a barreira dos R$ 400 em praças paulistas de oferta restrita, enquanto a média estadual do Cepea flerta com os R$ 390. O movimento não fica no pasto: nas gôndolas da capital, a carne bovina acumula 9% de alta no ano e subiu 2,3% apenas nas últimas quatro semanas.
O filé mignon lidera o repasse com 8% de valorização no período, seguido pelo patinho, que avançou 3,4%. Para o empresário do varejo ou da indústria de alimentos, a equação ficou clara: o custo da proteína vermelha pressiona margens e força decisões de mix de produtos quase em tempo real.
Onde a substituição começa a fazer conta
A relação de troca entre proteínas conta a história de forma crua. Hoje, um quilo de carcaça bovina equivale a 3,24 quilos de frango resfriado. Há um ano, a mesma arroba comprava 2,71 quilos da ave. No confronto com a carne suína, a proporção caiu de 3,14 para 2,63 quilos no último mês.
- Boi vs. Frango: 1 kg de carcaça bovina = 3,24 kg de frango (era 2,71 kg em 2023)
- Boi vs. Suíno: 1 kg de carcaça bovina = 2,63 kg de suíno (era 3,14 kg no mês anterior)
O frango ganha competitividade nítida. O porco, embora mais caro que no mês passado, ainda oferece janela de oportunidade para quem consegue repassar o custo ao consumidor final.
O cisne negro sanitário em Santa Catarina
Focos de doença de Newcastle em quatro municípios catarinenses — Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim — dispararam uma reação em cadeia no comércio global. Importadores dividiram-se em três blocos: embargo total ao frango brasileiro, barreiras apenas a Santa Catarina, ou restrição circunscrita à zona afetada.
Se a tendência de bloqueios amplos se confirmar, o excedente de ave que seguiria para exportação despeja-se no mercado interno. O efeito imediato: pressão baixista no preço do frango, ampliando ainda mais a vantagem competitiva frente ao boi.
Exportações: volume cai, preço sobe — mas até quando?
Em outubro, os embarques médios diários de carne bovina recuaram 34% na comparação anual, para 10 mil toneladas. As “amarras” da China e da União Europeia explicam o tombo. Em contrapartida, o preço médio em dólar subiu 14%, amortecendo a receita total.
No front avícola, os três maiores exportadores mundiais enfrentam problemas simultâneos. Estados Unidos e Europa convivem com gripe aviária generalizada — os americanos já eliminaram 210 milhões de aves desde 2022. O Brasil, livre da influenza no ano passado, vê agora o Newcastle criar incerteza justamente quando poderia capturar fatia de mercado.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo trimestre: a velocidade de contenção do foco em Santa Catarina e a consequente reabertura de mercados; a disposição chinesa em flexibilizar exigências para recompor estoques; e a resposta da pecuária de ciclo curto (frango e suíno) ao sinal de preço. Quem opera na ponta — varejo, food service, processamento — deve monitorar a relação de troca semanal. Ela antecipa, com semanas de antecedência, qual proteína ocupará o centro do prato e da planilha de custos.
