A comissão técnica de Carlo Ancelotti e a cúpula da CBF compartilham uma mesma angústia: os dois maiores talentos da nova geração brasileira mal pisam no gramado pelos seus clubes europeus. Endrick no Real Madrid e Estêvão no Chelsea vivem situações parecidas — e o silêncio dos vestiários começa a ecoar na Granja Comary.
A convocação para a Data Fifa de novembro trouxe a preocupação à tona. Não pelas novidades na lista, mas pelos nomes que já estão nela e continuam sem ritmo de jogo. O diagnóstico é direto: atletas saem do Brasil cada vez mais cedo, não completam a formação aqui e, ao chegar lá fora, viram peças de banco.
O dilema do “menino que não joga”
Estêvão virou o símbolo do problema. Contratado pelo Chelsea com status de estrela, o atacante não foi escalado nem na Copa da Liga Inglesa — competição onde os grandes times costumam rodar o elenco. Diante do Liverpool, com um time misto em campo, ele sequer saiu do banco.
No Real Madrid, Endrick convive com a concorrência de Mbappé, Vinícius Jr. e Rodrygo. Minutos em La Liga e Champions League são moeda rara. A comissão técnica da seleção monitora cada treino, cada viagem, cada sinal de que o desenvolvimento não está estancado.
Por que isso afeta a seleção hoje
O raciocínio na CBF é simples: jogador sem minutagem não evolui. E jogador que não evolui não entrega o que a seleção precisa em Copas do Mundo e Eliminatórias. A convocação atual mira um projeto de médio prazo — testar, observar, descobrir quem pode vestir a amarelinha daqui a dois, quatro anos. Mas o “futuro” não espera quem fica parado no presente.
- Endrick: 18 anos, Real Madrid, minutos escassos em 2024/25
- Estêvão: 17 anos, Chelsea, zero minutos em jogos oficiais na temporada
- Ponto comum: saíram do Brasil antes dos 18 anos, sem rodagem na Série A
O ciclo que se repete e assusta
Não é caso isolado. A geração anterior teve casos similares — promessas que brilharam na base, foram vendidas cedo e sumiram no futebol europeu. A diferença agora é a visibilidade: Endrick e Estêvão carregam expectativa de protagonismo imediato. A cobrança por resultados na seleção principal torna a falta de ritmo um risco calculado que ninguém sabe se vale a pena correr.
Ancelotti, em sua primeira entrevista como técnico do Brasil, admitiu que a lista reflete uma busca por renovação. A palavra “projeto” apareceu mais vezes que “resultado”. Isso sinaliza paciência — mas paciência tem prazo de validade quando a Copa do Mundo de 2026 se aproxima.
O que observar nos próximos meses
A janela de transferências de janeiro será decisiva. Empréstimos para clubes de menor expressão, mas com tempo de jogo garantido, são cogitados nos bastidores. A CBF não tem poder de decisão sobre os clubes, mas seu peso político pode abrir portas. Enquanto isso, a comissão técnica segue anotando: treinos, condição física, linguagem corporal. O talento está lá. O que falta é o jogo.
