Tecnologia

Internet virou shopping e cassino: o segredo que ninguém conta

Capa do livro "A Internet Não Precisa Ser Assim" sobre algoritmos, economia da atenção e transformação da web em shopping vigiado
Lançamento analisa como a internet virou shopping e cassino controlado por algoritmos onde o usuário é o produto.

Um novo livro diagnostica que a web se transformou em um grande centro comercial vigiado por algoritmos e povoado por robôs. A promessa utópica dos anos 90 deu lugar a um ambiente onde a atenção é moeda e o usuário, o produto. Entender essa engrenagem é o primeiro passo para não ser triturado por ela.

Da utopia ao “shoppings center” digital

Fernanda Campagnucci e Marcelo Soares, jornalistas que cresceram discando para a internet, lançam “A Internet Não Precisa Ser Assim” (Editora Diálogos, 155 págs., R$ 65). A obra não é apenas uma nostalgia; é uma radiografia fria de cinco “vilões” que sequestraram a rede: plataformas muradas, bilionários com agendas ocultas, vigilância comercial, mecânicas de cassino e a invasão de bots turbinados por IA generativa.

Os autores evitam o aprofundamento acadêmico isolado. Preferem montar uma “caixa de ferramentas” conceitual para que qualquer profissional consiga ler o cenário atual com clareza cirúrgica.

O conceito que explica por que tudo piora

O termo central é “merdificação”, cunhado por Cory Doctorow. Funciona em três atos previsíveis:

  • Primeiro, a plataforma atrai usuários com serviço bom e grátis.
  • Depois, prende parceiros comerciais (anunciantes, criadores) tornando-os dependentes do alcance.
  • Por fim, degrada a experiência de ambos para espremer lucro máximo — empurrando anúncios irrelevantes, limitando alcance orgânico e vendendo dados.

O resultado é um ambiente onde a qualidade cai, mas a saída fica difícil pelo custo de migração.

Vigilância virou jogo de azar

Shoshana Zuboff batizou a fase anterior de “capitalismo de vigilância”: dados previam comportamento para vender anúncios. O livro alerta: a previsão falhou. Como acertar o humano é caro e impreciso, as big techs mudaram a estratégia para captura direta de atenção via gamificação.

Adrian Hon descreve o uso de narrativas, pontuações, recompensas aleatórias e punições por abandono. Não é só o “jogo do tigrinho”; está no scroll infinito, nas streaks do Duolingo, nas notificações que simulam urgência. O usuário joga contra a casa — e a casa sempre ganha tempo de tela.

O novo morador: o bot que não dorme

A camada mais recente é a enxurrada de agentes sintéticos. Com IA generativa barata, robôs produzem conteúdo, simulam engajamento, manipulam trending topics e atendem suporte fingindo empatia. Eles não compram, mas inflando métricas, encarecem mídia e poluem a descoberta genuína. Para o anunciante, é dinheiro queimado; para o profissional, é ruído na análise de mercado.

Como navegar sem afundar

O livro não deixa o leitor só no diagnóstico. Propõe táticas imediatas:

  • Limites rígidos de tempo de tela (ferramentas nativas do SO resolvem).
  • Migração para protocolos abertos (Mastodon, Bluesky, RSS, newsletters).
  • Uso de bloqueadores de rastreadores e DNS filtrante (NextDNS, AdGuard).
  • Pagamento direto a criadores — tira o intermediário que vende sua atenção.

O que observar daqui para frente

A briga regulatória (DMA na Europa, PL das Fake News no Brasil) tenta forçar interoperabilidade e transparência algorítmica. Se avançar, o “muro” das plataformas racha e a merdificação perde força. Enquanto isso, quem controla a própria pilha de dados e canais de distribuição — site próprio, lista de e-mail, comunidade em software livre — ganha imunidade contra mudanças unilaterais de regras. A internet não precisa ser assim, mas só deixa de ser para quem constrói alternativas antes de precisar delas.