A vice-presidente Delcy Rodríguez exigiu, nesta quarta-feira (28), a devolução imediata das reservas de ouro venezuelanas custodiadas no Banco da Inglaterra. O montante, avaliado em US$ 1,9 bilhão — cerca de R$ 10,1 bilhões —, está congelado há mais de seis anos. A jogada ocorre em meio a um degelo diplomático que poucos previam.
Por que Londres insiste em segurar ativos que pertencem ao Banco Central da Venezuela? A resposta passa por reconhecimento político, sanções e uma reviravolta recente no comando do país.
O valor por trás do bloqueio
As barras de ouro representam uma das maiores reservas soberanas retidas no exterior. Desde 2018, o Reino Unido se recusa a reconhecer a reeleição de Nicolás Maduro, o que impede legalmente o acesso de Caracas aos cofres britânicos.
Para Rodríguez, a retenção equivale a um “roubo” descarado. “Chega de desculpas”, disparou a líder interina durante reunião ministerial. “Esse ouro é dos venezuelanos e das venezuelanas, não do Banco da Inglaterra”.
Por que o ouro continua em Londres
A origem do impasse remonta a 2019. Na época, o então líder da oposição Juan Guaidó solicitou ao Banco da Inglaterra que bloqueasse o ativo. O objetivo era claro: impedir que o governo Maduro acessasse liquidez internacional.
O argumento jurídico britânico sustenta que, sem reconhecer Maduro como chefe de Estado legítimo, não há autoridade habilitada a ordenar a liberação. O resultado é um limbo financeiro que já dura 2.200 dias.
- Valor bloqueado: US$ 1,9 bilhão (R$ 10,1 bi).
- Início do congelamento: 2018/2019.
- Custodiante: Banco da Inglaterra.
- Status diplomático: Embaixadores nomeados em setembro.
A virada diplomática e o fator Maduro
Em setembro, Londres e Caracas anunciaram a nomeação mútua de embaixadores, elevando as representações que eram mantidas apenas no nível de encarregados de negócios. O movimento sinalizou uma disposição ao diálogo após anos de rompimento.
A exigência atual ganha peso adicional nove meses após a captura de Maduro em operação militar dos EUA — fato que alterou a correlação de forças internas. Em agosto, a mesa de negociações para transição democrática já havia acordado trabalhar pela recuperação do ouro e assistência às vítimas dos terremotos de junho.
Os próximos passos de Caracas
Rodriguez não se limitou ao discurso. Determinou que o Ministério das Relações Exteriores e a Procuradoria-Geral da República acionem os canais formais para repatriação do ativo. A ordem é transformar a pressão política em procedimento jurídico concreto.
“O que vimos nesses anos, em bom venezuelano, chama-se enrolação”, afirmou a vice-presidente. “É uma enrolação que busca se apropriar ilegitimamente dos recursos”.
O que observar daqui para frente
A devolução depende, agora, de uma decisão soberana do Judiciário britânico ou de um acordo político entre os novos embaixadores. Investidores e analistas de risco soberano devem monitorar dois gatilhos: o andamento das ações na Procuradoria britânica e a postura do novo governo venezuelano frente às sanções remanescentes. A liberação desse colateral pode redefinir a capacidade de pagamento da dívida externa e a credibilidade do país nos mercados globais.
