Uma joia concebida em São Paulo brilhou no tapete vermelho do Oscar 2026 no pescoço da atriz Alice Carvalho. Por trás do broche ByaYala está Luiza Simões, empreendedora que transformou a ourivesaria em um ecossistema completo: marca própria, loja física e uma escola que já formou centenas de profissionais.
A peça carrega referências do povo Kuna, da América Latina, e marcou a estreia da designer na maior premiação do cinema mundial. Mas o caminho até lá passou por uma reviravolta que por pouco não encerrou a carreira dela antes de começar.
O fim da escola que virou o começo do negócio
Luiza aprendeu o ofício — serrar, soldar, modelar metais — em um ateliê-escola tradicional. Quando concluiu o curso, foi convidada a lecionar no mesmo local. Tudo corria bem até a instituição fechar as portas inesperadamente.
O choque inicial deu lugar à urgência de manter os alunos. Sem capital de giro nem investidores, ela alugou uma sala na mesma rua e propôs um combinado direto: os estudantes adiantavam as mensalidades para financiar a compra dos primeiros equipamentos. A confiança funcionou.
Três anos depois, a escola própria contabiliza cerca de 100 alunos formados. O curso tem 30 horas divididas em três módulos, com investimento de R$ 4.890. O público vai de jovens em busca da primeira profissão a profissionais em transição de carreira.
Alunos que viram concorrentes (e parceiros)
O modelo gerou um efeito colateral poderoso: ex-alunos abrindo marcas próprias. Catarina Salles, por exemplo, começou aos 17 anos e, aos 19, já opera sua grife no mesmo endereço da escola. “O aprendizado me deu autonomia técnica para criar”, resume ela.
Para Luiza, a pulverização de talentos fortalece o setor. São quatro professores na equipe atual, e a empreendedora enxerga a formação de mão de obra especializada como ativo estratégico, não ameaça.
Cinema, joalheria e a rota internacional
Formada em artes cênicas, Luiza aplica linguagem audiovisual às coleções. “Não é só uma joia, tem muita narrativa por trás”, diz. A estratégia de storytelling visual abriu portas para feiras em Milão e Paris ao longo de 2025.
O convite para o Oscar chegou no ano seguinte. A peça escolhida, o broche ByaYala, sintetiza a proposta da marca: joias com identidade latino-americana e apelo autoral. “Senti que muito da minha trajetória atingia um objetivo”, afirma a ourives.
- Marca: OPVS (loja física e e-commerce)
- Escola: Rua Purpurina, 107, Vila Madalena, São Paulo
- Equipe: 4 professores + gestão da fundadora
- Projetos atuais: EUA, Europa e Japão
O que vem depois da estatueta
O reconhecimento hollywoodiano é tratado como marco intermediário, não linha de chegada. “É só o início. Tem muita coisa para vir pela frente. Novos desafios vêm que a gente nem imaginava como lidar. E é aí que vem o lugar do empreendedor: tem que inventar”, finaliza Luiza.
Para o mercado, o caso ilustra como formação técnica + narrativa de marca + expansão geográfica calculada podem escalar um negócio artesanal para o palco global sem perder a identidade. O próximo capítulo passa por consolidar a operação internacional e transformar a escola em referência contínua de inovação no setor joalheiro brasileiro.
