A Polícia Federal revelou que a ex-diretora de Riscos do BRB alertou sobre R$ 1,1 bilhão em créditos atrasados comprados do Banco Master, mas aprovou a operação sob “pressão hierárquica”. Em mensagens privadas, ela admitiu ter “fingido demência” para acalmar o superior imediato. O relatório parcial de 700 páginas, entregue ao STF, indica 15 pessoas e sugere que a farra contábil ia muito além de uma falha de processo isolada.
O alerta que virou “colcha de retalhos”
Em 12 de fevereiro de 2025, Luana de Andrade Ribeiro, então chefe de Controle e Riscos, enviou um diagnóstico direto ao diretor de Finanças, Dário Oswaldo Garcia Júnior. Havia R$ 1,1 bilhão em operações com mais de 15 dias de atraso. Faltavam as averbações dos contratos — documentos essenciais para atestar a natureza consignável dos ativos.
Mesmo sem a documentação completa, Luana classificou a análise como uma “colcha de retalhos” e confessou: “Tô fingindo demência com o chefe. Pra ele parar de brigar”. A pressão hierárquica, segundo o inquérito, foi o motor para que o parecer favorável saísse. Dias depois, ela assinaria informes sobre a deterioração da liquidez do banco e, ainda assim, votaria a favor de novas aquisições de carteiras.
Como 90% da carteira virou prejuízo bilionário
O problema não era novidade. Em 2024, a diretoria já sabia que aproximadamente 90% da carteira recebida do Master apresentava falhas ou não atendia aos critérios do BRB. Um gerente escalou o alerta internamente. A resposta da cúpula? Efetivar as operações mesmo assim.
O balanço final da aventura custou caro ao banco público do Distrito Federal:
- R$ 16,7 bilhões injetados no Banco Master na tentativa de compra;
- Operação barrada pelo Banco Central após descoberta de fraudes;
- Parte dos ativos adquiridos era “sem lastro”, segundo a PF.
Mas o efeito mais relevante aparece na estrutura de governança: a área de Riscos foi atropelada pela área de Negócios.
O “núcleo estratégico” e os 15 indiciados
A PF aponta Daniel Vorcaro (ex-dono do Master) e Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB) como líderes do “núcleo estratégico da organização criminosa”. Vorcaro centralizava decisões de produção, aquisição e cessão de carteiras usadas para captação. Costa, por sua vez, teria viabilizado o fluxo pela porta do BRB.
A lista de indiciados divide-se em três blocos:
- Seis ex-sócios ou gestores do Banco Master;
- Dois sócios da Tirreno, consultoria tratada como empresa de fachada;
- Sete ex-diretores do BRB (Riscos, Finanças, Pessoas, Atacado, TI e Controladoria).
A investigação pediu mais 60 dias ao ministro André Mendonça para concluir perícias e ouvir testemunhas-chave que ainda faltam.
O que as defesas alegam e o que vem pela frente
As narrativas divergem radicalmente. A defesa de Vorcaro chama o indiciamento de “açodado”, argumenta que as carteiras problemáticas foram substituídas por ativos hígidos e que não há perícia oficial comprovando prejuízo — apenas números da ação indenizatória do próprio BRB. Já Paulo Henrique Costa sustenta que foi ele quem detectou as irregularidades, exigiu R$ 25 bilhões em garantias, suspendeu operações ao descobrir a Tirreno e comunicou o Banco Central. Afirma não ter alçada decisória individual e que o banco era saudável quando deixou o cargo.
Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, nega participação e atribui a acusação a leitura enviesada de mensagens desconexas.
O que observar daqui para frente
Três movimentos definirão o desfecho nos próximos meses. Primeiro, a decisão do STF sobre os 60 dias extras de inquérito — se negados, o relatório vai ao MPF como está. Segundo, o resultado das perícias contábeis pendentes: elas validarão a tese de “prejuízo zero” (defesa) ou confirmarão o rombo bilionário (acusação)? Terceiro, a esfera cível: o BRB move ação indenizatória cuja perícia pode sepultar ou confirmar a narrativa de fraude. Para investidores e gestores de risco, o caso virou case study de como a governança de risco colapsa quando a pressão por volume sobrepõe a qualidade do ativo.
