Meio Ambiente

Super El Niño: 6,9 milhões de brasileiros afetados e prejuízo de R$ 12,6 bi em 3 meses

Mapa do Brasil destacando áreas atingidas pelo Super El Niño com ícones de enchentes, seca e prejuízos econômicos
Super El Niño afeta 6,9 milhões de brasileiros e causa R$ 12,6 bi em prejuízos em três meses.

Entre julho e setembro, o Super El Niño atingiu 6,9 milhões de pessoas no Brasil, deixou um rastro de R$ 12,6 bilhões em prejuízos e matou 25 brasileiros. Os números são de um levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) e expõem a dimensão de um fenômeno que a Organização Meteorológica Mundial classifica como um dos mais fortes da história.

Mas o custo real vai muito além do que cabe em uma planilha.

O que os números revelam sobre o tamanho do problema

O estudo mapeou 1.035 municípios que decretaram situação de emergência ou calamidade pública no terceiro trimestre. O resultado: 87,7 mil desalojados, 808 casas completamente destruídas e quase 50 mil residências danificadas por ondas de calor, secas, vendavais e inundações.

Do total de perdas financeiras, a agricultura concentra o maior golpe: R$ 5,7 bilhões evaporaram com safras perdidas, colheitas atrasadas e escoamento comprometido. A infraestrutura pública amargou R$ 3,6 bilhões — metade disso apenas em sistemas de abastecimento de água, deixando milhões sem o recurso básico.

Nordeste lidera perdas, mas nenhuma região escapou

O impacto se distribuiu de forma desigual pelo território:

  • Nordeste: R$ 5,7 bilhões em prejuízos, 319 municípios em emergência, 1,4 milhão de afetados; o agronegócio sozinho perdeu R$ 3,4 bilhões com o agravamento da estiagem.
  • Sudeste: R$ 4 bilhões em danos, 3.054 moradias atingidas por vendavais, granizo, deslizamentos e inundações; Minas Gerais concentrou quase 1 milhão de vítimas.
  • Sul: R$ 1,8 bilhão em perdas, 2,2 milhões de pessoas impactadas por chuvas intensas e tornados.
  • Norte: Seca severa prejudicou a navegação fluvial e alterou o regime de chuvas nacional.
  • Centro-Oeste: R$ 175 milhões em danos, impulsionados por incêndios florestais no clima seco.

Quem paga a conta não é quem polui

Para Marijane Lisboa, da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, a conta apresentada pela CNM subestima a tragédia. A transformação do semiárido em árido e os incêndios na Amazônia não se convertem em reais no curto prazo — seus efeitos reverberam por décadas na saúde, na segurança alimentar e na sobrevivência de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e agricultores familiares.

“Quem paga o maior pato das emissões de gases de efeito estufa produzidos pela exploração e consumo de petróleo, carvão e gás natural por grandes empresas e países são os mais desfavorecidos”, afirma a especialista. Gente pobre nas periferias das grandes cidades também entra nessa conta.

O pico ainda está por vir

A OMM alertou em 21 de outubro: o El Niño atual deve atingir seu ápice ainda em 2024, com perspectivas de se tornar um evento sem precedentes. A previsão é que o fenômeno persista até pelo menos fevereiro de 2025, mas suas consequências — secas prolongadas, incêndios, instabilidade hídrica — ecoarão por muito mais tempo.

Eventos climáticos extremos estão se tornando mais frequentes. A CNM reforça: medidas de prevenção e resiliência climática precisam escalar na mesma velocidade.

O que observar nos próximos meses

Gestores públicos e privados devem monitorar três frentes: a evolução do déficit hídrico no Nordeste e Norte, o risco de novos episódios de chuva extrema no Sul e Sudeste com o solo já saturado, e a safra 2024/25, que começa sob incerteza climática. Para investidores, o sinal é claro: ativos expostos a infraestrutura hídrica, logística fluvial e produção agrícola de sequeiro carregam prêmio de risco crescente. A adaptação deixou de ser opção filantrópica e virou variável de valuation.